segunda-feira, 27 de março de 2017

[2915] "O capacete" e "A tatuagem", de Joaquim Saial, já estão no "Terra Nova" de Cabo Verde

Duas Histórias de Vida e Morte, "O Capacete" e "A Tatuagem", short stories de humor negro, mais de humor que de morte, uma centrada numa roça em São Tomé e outra em sítio indeterminado, também de expressão lusófona. Encontra-as no "Terra Nova", de Cabo Verde. Boa leitura, lhe desejamos...


domingo, 26 de março de 2017

[2914] O "Endeavour" já terá estado no Porto Grande? Dizem que é o mais belo do mundo e está em Cascais

Ver AQUI a notícia (e maximize o filme)

[2913] Eis o que se pode desvendar acerca da foto do post anterior

Ora a foto é do feriado do 1.º de Dezembro de 1944 (calhou a uma sexta-feira, mesmo a jeito para o evento que ali teve lugar). Diz o palpite do Mendes que é o Hospital. Ora o Hospital fica no Lombo e o que temos aqui aconteceu na Ribeira Bote/a, como reza o texto manuscrito no verso da mesma. Está mais ou menos explicado de que se trata. É uma "Lembrança da inauguração da Sala do Soldado do C.A.R. do Regimento de Infantaria 23". Este regimento (de Coimbra) viera de Sul, de outras Áfricas ainda mais africanas, como reza o que retirei do blogue "Momentos de História": 

Para a defesa da Ilha de São Vicente e do cabo submarino, foi desembarcado um contingente de 80 praças e três oficiais  do Batalhão de Infantaria n.º 23, comandadas pelo Capitão António Joaquim Ferreira Diniz, que se encontravam a bordo do vapor "Moçambique". Estas faziam parte do contingente de repatriados que seguiam para a metrópole, encontrando-se muito afectados por doenças. No entanto e apesar das condições de saúde, abriram trincheiras e preparam posições defensivas com vista a proteger o Porto Grande de um eventual desembarque de surpresa. 

Quanto à palavra "Soldado", custou-nos decifrá-la, mas veja-se que o "a" de "Sala" é minúsculo, tal como o "o" de "Soldado" (apenas um pontinho, na junção entre o "S" e o "l"). Agora, entra em cena o Adriano que nos irá dizer o que era o C.A.R.

Relativamente ao civil com capacete colonial nas nãos, pareceu-nos o poeta José Lopes, mas com imensas dúvidas, apesar de tudo.

Do cartaz afixado na porta, com quatro palavras sobrepostas, só conseguimos desvendar as primeiras três: C.A.R. / Posto / de /... Terá algo a ver com saúde? Daí as duas senhoras que poderão ser enfermeiras? Posto de enfermagem, em vez de hospital? Mas havia enfermeiras no Mindelo a prestar assistência aos soldados? Eles não tinham o seu próprio médico e enfermeiros militares? Enfim, mistério... A decifração da sigla C.A.R. poderá trazer algumas luzes. E assim, continuamos a mergulhar não na Matiota nem na Baía das Gatas mas na história de São Vicente e do Mindelo...


[2912] Só para maiores de 80 anos... que tinham sete, quando esta foto foi feita

Que se passa nesta foto? Por que foi feita? Que comemora? Pergunta extremamente difícil de adivinhar. Que sítio é este? Não tão difícil, mas mesmo assim muito complicado (e não venham dizer que é São Vicente, porque essa é a única coisa que até o ignorante do Djosa de nha Bia sabe...). Quem são estes homens e sobretudo quem são os dois civis (suspeito que sei quem é o do capacete colonial) e as duas senhoras? Talvez seja mais fácil de descobrir, excepto para mim. Quanto à frase, era verdadeira e adequada na altura, pois claro. Aqui fica o repto para o sport de Tours (nosso fiel comentador e sábio encartado) se deliciar. Só para envenenar o espírito dos amigos que têm o hábito salutar de comentar as nossas imagens, informamo-los que sabemos qual o assunto que levou a que a foto fosse feita, a data da mesma e o local quase exacto em que se ouviu o click!. Por fim, não fazemos disto concurso, dada a dificuldade das perguntas. O Pd'B só faz concursos que ele próprio poderia ter capacidade, ainda que remota, de vencer.






sexta-feira, 24 de março de 2017

[2909] Um saboroso texto inédito de Adriano Miranda Lima (que agora deixa de o ser...)

UM CASO REAL QUE ENTROU NO ANEDOTÁRIO DO POVO DE S. VICENTE DE CABO VERDE

Adriano Miranda Lima
Nos meus tempos de menino e moço em S. Vicente de Cabo Verde, ouvia aos mais velhos contar este caso ocorrido com o mestre de falucho “Joquim de Nhô”. Para o dar agora à estampa, tive necessidade de confirmar e clarificar alguns dados, recorrendo à memória de um tio meu e do amigo Valdemar Pereira. Diga-se de passagem que este episódio ilustra bem o refinado espírito de humor do povo da ilha de S. Vicente.

JOQUIM DE NHÔ E O SUBMERSÍVEL ALEMÃO

Durante a II Guerra Mundial, submersíveis alemães pairavam nas águas cabo-verdianas e com frequência rondavam o litoral das ilhas do Noroeste do arquipélago, em especial a de Santo Antão, muitas vezes ancorando em algumas baías mais recônditas para se reabastecerem de produtos frescos.

Grande parte do transporte de mercadorias entre S. Vicente e Santo Antão era assegurado por pequenos veleiros de um mastro conhecidos por faluchos. Os seus mestres eram homens simples, sem grande instrução, mas calejados e experimentados na navegação de cabotagem. Essas embarcações pertenciam a comerciantes da praça de S. Vicente ou a proprietários rurais de Santo Antão ou outras ilhas mais próximas.

O Joquim de Nhô  era um desses mestres e o seu roteiro normal era entre o porto do Paul, Santo Antão, de onde era natural, e o Porto Grande, de S. Vicente. À data em que os factos se passaram, seria homem dos seus sessenta anos. Andava sempre de sandálias de couro e com um boné do mesmo material.

Certa noite, em 1942, ia ele ao leme do seu falucho, viajando de Santo Antão para S. Vicente, com o pequeno navio carregado de produtos agrícolas e galinhas acondicionadas dentro de cestas de verga, como era usual.

A dada altura, o andamento do falucho é interceptado por um submersível alemão. Um foco luminoso inunda o seu convés. Do monstro de aço, vem ordem, entre gestos e palavras gritadas em língua estrangeira, para o falucho baixar os panos e suster a marcha. Imobilizado o falucho, alguém no submersível quer saber quem é o seu capitão.

O Joquim Nhô não fala o inglês, mas percebeu a intenção da pergunta e, visivelmente nervoso e atrapalhado, leva os braços ao ar, em sinal de rendição, e diz em crioulo, sua língua materna:

− Mim ê Joquim de Nhô, capton dês navizim, fidje de Mari Jona e Nhô Grigor. Bocês ca fazê nôs mal porque ês navizim n’ê de combat.

Aos gestos e palavras que perguntavam sobre a finalidade da viagem, responde:

− Nôs traboi ê sô transportá carga e gente entre Soncent e Sintanton. Nôs n’tem nada c’guerra de bocês ma Inglaterra.

− What are you carrying? – Perguntaram os alemães. 

− Batating, mandioking, bananing,  galinhing… − Respondeu Joquim de Nhô, tentando dar um ar de inglês a essas palavras.

Então, alguns marinheiros alemães descem ao convés do falucho e transferem para o tombadilho do submersível o que mais lhes interessou, produtos agrícolas e as galinhas que viram dentro dos cestos arrumados no convés. Entregam ao “capton” uma importância em dinheiro que calcularam correspondia ao preço dos produtos, não se sabe se em marcos ou libras.

Boquiaberto e ainda não refeito do enorme susto que apanhou, Joquim de Nhô vê o submersível desparecer na escuridão da noite com a mesma rapidez com que surgira momentos antes. Manda içar de novo os panos e algumas horas depois o falucho largava ferro na baía do Porto Grande. Com os porões aliviados de muito do que fora carregado no Paul, mas com algum dinheiro estrangeiro nas mãos do “capton” para ser entregue a quem de direito.

O cônsul britânico, em S. Vicente, tendo tido conhecimento do ocorrido, mandou um recado ao Joquim de Nhô, dizendo-lhe para de futuro ir logo ao Consulado dar conta dos submersíveis alemães que avistar no canal. O “capton” respondeu ao portador do recado: 

− Bá e bô dzê pa nhô Cônsul que Joquim de Nhô n’é spion de ninguém”. 

Tomar, 18 de Março de 2017
Adriano Miranda Lima

quinta-feira, 23 de março de 2017

[2908] Mindelo vai ter... sambódromo. Ou da domesticação do carnaval popular ao desprezo pela coladera


Toda a gente sabe que o samba é coisa muito de Cabo Verde, nomeadamente de São Vicente. Há até académicos internacionais que afirmam a pés juntos que este género musical nasceu no Mindelo, algures no sopé do Monte Cara - que antes estava com o nariz virado para o Brasil e de tanto sambar se fatigou e passou a ficar deitado. É de igual modo ponto assente que o Brasil nos copiou, aliás de modo assaz incipiente e... desengonçado. Isso mesmo se pode ler nas páginas 345 e 346 de "O Samba Nasceu Junto ao Monte Cara", do insuspeito professor Itamar Jeruso Alagoas Tapué, catedrático da Universidade Federal do Pão de Açúcar. Também se afirma em aulas do recém-criado mestrado de Samba da Universidade Independente da Matiota que a coladera é muzga sem importância, inventada por selvagens antropófagos da Papua Nova-Guiné e trazida para o arquipélago por um emigrante cabo-verdiano que construiu casa na Ribeira de Julião, adaptando depois a dança à realidade das ilhas através da "umbigada".

Enfim, não adiantamos mais, pois de facto o que fazia falta ao Mindelo era um sambódromo. Nada de mais útil à cidade, sem dúvida. Uma ideia brilhantíssima que merece monumento a quem a teve e a quem a deseja realizada. Um achado! Praia de Bote bate palmas e mexe o pé, ao som de "Sambinha da Baía... das Gatas" da autoria do famosíssimo Djosa de Nha Bia, o homem que ensinou B. Léza a tocar e que começa com a frase "Nossenhora da Luz nos proteja"...

Ver AQUI


quarta-feira, 22 de março de 2017

[2907] A resposta da Super Bock ao palerma holandês...

Isto é que é sentido de oportunidade, isto é que é marketing, isto é que é humor! Parabéns à cerveja que gastou tudo em copos e propomos aos cabo-verdianos que passem a beber o delicioso néctar português, a par da igualmente refrescante Strela!...


[2906] Por vezes, há milagres...

No mesmo recente dia em que dei com o desastrado banco pessoano, fotografei um local que é conhecido do Brito-Semedo, do Adriano, do Valdemar, da Ondina e da Carmo, entre outros amigos que já ali tenho levado (o Zito...), por entre passeios na baixa lisboeta, com intervalos pantagruélicos e degustações vinícolas (enfim, algum exagero nestas palavras, convenhamos...). Os bons fotógrafos, conseguem imensas boas fotografias a partir do nada; os amadores, esses precisam de um milagre para terem uma boa fotografia. E de facto assim foi. Nesse pós-almoço dominical passado saiu uma das melhores dos últimos tempos. Ela aqui fica, para os "meus" turistas e amigos cabo-verdianos que já ali entraram. E também para os que não conheço, obviamente.



[2905] Carta do Fogo...

Todos conhecemos pelo menos um descendente, com o mesmo nome e "nominha", rapaz da Armada portuguesa e de vários galões. Aqui fica, para os foguenses que cá vêm se deliciarem, esta carta dirigida à Spencer Novelty MFG, na Rua Spencer de Brooklyn, 141, New York; USA.  

Repare-se no desenho, sacas de café com as iniciais de Agnelo A. A. Henriques mais a palavra Fogo, as folhas de cafezeiro e o cordeiro (agnus), para além no sinete do lacre com o "nominha". Um luxo, de requinte!!! 

Ah!, A rua e a dita americanas ainda existem. Se não acreditam, vão ver ao Google Maps... Para finalizar, a frase muito antiga inventada há segundos aqui no Pd'B: "Fogue ca é (era) só bulcon"... E, já agora, deixem os vossos comentários.




[2904] Simão Juliano, o herói cabo-verdiano (santantonense da Ribeira Grande), "homem livre" e salvador de náufragos do "Pernambuco"

Já conhecíamos a história, centrada nos feitos heróicos de Simão Juliano, cabo-verdiano que em 1853 salvou treze náufragos do vapor "Pernambucana". Mas não com o desenvolvimento que a "Revista Estrangeira", jornal literário publicado entre 1853 e 1862 (Lisboa) lhe deu. Foi o nosso colaborador Artur Mendes quem a descobriu, fomos nós que editámos o material e são os leitores do Praia de Bote que vão usufruir deste saboroso petisco acerca de um herói "marítimo", grande entre os grandes, dos muitos que a nação cabo-verdiana produziu. Ver mais imagens de Simão Juliano e outras curiosidades, dignas do interesse dos nossos visitantes, no blogue irmão Esquina do Tempo, AQUI E, já agora, deixem os vossos comentários...



[2903] A explosão na canhoneira "Ibo", a caminho de Santo Antão

"A Capital", 12.Julho.1915

"A Capital", 13.Julho.1915

segunda-feira, 20 de março de 2017

[2902] Um banco de madeira no Largo do Corpo Santo, Lisboa, um erro, gravadores que gravam mal, fiscais que não fiscalizam e o esqueleto de Fernando Pessoa a saltar nos Jerónimos

Pela mão do Artur Mendes, a gralha do banco chega ao "Observador" a 21.3.2017
Ver AQUI

O Praia de Bote é blogue marítimo e naval e quando se fala de oceano está sempre pronto para nele mergulhar. Por isso, esta conversa não cabo-verdiana fica aqui bem na mesma.


Sim, a coisa é grave. Os turistas que têm passado pelo claustro do Mosteiro dos Jerónimos nos últimos tempos têm ouvido ruídos estranhos, provenientes no túmulo do poeta da "Mensagem". Dão estes a impressão de choque de uma caveira contra tíbias, na companhia de húmeros e costelas, quiçá com a ajuda de seis ou sete vértebras e mais alguns tarsos e metatarsos. Ou seja, é um ruido similar ao de quem vê a sua obra enxovalhada... 

Vem isto a propósito do verso gravado num dos bancos de madeira que mobilam a renovada praça do Corpo Santo, em Lisboa, ali bem perto do Cais do Sodré, também ele novinho em folha, e do edifício dos Paços do Concelho da capital portuguesa.

Os bancos, de sólida madeira de peça única e suportes quase invisíveis de metal, agradáveis à vista e razoavelmente confortáveis, têm versos gravados (um em cada um deles). Enfim, isso não se percebe logo à primeira, pensa-se que são frases destrambelhadas, órfãs e solitárias, porque quem teve a ideia achou talvez que os ditos surgiram de geração expontânea, sem poema e sem autor, quiçá saídos de uma "Máquina Automática de Fazer Frases para Bancos"...

Ora no banco em que ontem à tarde me sentei e que depois fotografei está um verso do poema "D. Dinis" da "Mensagem" de Fernando Pessoa. Leiamo-lo, atentando no 7.º verso:

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.


Pois houve alguém na CML que teve a ideia; houve alguém numa oficina que fez a gravação; houve alguém da oficina ou da CML que fez a colocação do equipamento de mobiliário urbano; e houve alguém na CML que deveria ter fiscalizado. Pois, NADA, NADA DE NADA. Ninguém viu, ninguém percebeu, ninguém entendeu, ninguém deu com o gato...

A asneira lá está e lá estará... até ao dia em que a ossada de Fernando Pessoa, desgastada de tanto saltitar na tumba, se transforme em pó e apenas faça fshhhhh, fshhhhh... Mas isso ainda vai demorar um tempo...

Ah! Quem escreveu este post não está imune ao erro... mas tenta sempre evitá-lo e olha, olha e reolha para o que escreve, tentando sempre apanhar o gato escondido. Por fim, a questão não é a existência da gralha mas sim o facto de ela ainda lá estar.

quarta-feira, 15 de março de 2017

[2898] Promessa cumprida

Como prometido, seguiram agora mesmo, para todos os que fizeram comentários, as duas páginas do "Diário de Lisboa" - o da expulsão do nosso amigo Zito (ver post 2891). Não as enviei para o Paulo, porque ainda não me indicou o seu endereço electrónico para lhe poder oferecer este material.

segunda-feira, 13 de março de 2017

[2897] Não é só atirar a linha e fisgar o peixe... agora, como antes...

"A Capital", Lisboa, 13.Julho.1915
O autor, Armando Xavier da Fonseca, era engenheiro e alguma da sua bibliografia pode ser vista AQUI





[2896] Em cerce de três dias... 636 visitas (contabilizadas cerca de 8h30 de hoje) ao post sobre os dias de chumbo

[2895] De novo, o heróico "partigiano" são-vicentino Nicolau do Rosário

Leia (e oiça AQUI, incluindo a intervenção do embaixador de Cabo Verde em Roma, Manuel Amante da Rosa, nosso amigo e colaborador)  a Rádio Vaticano, onde se fala do mindelense Nicolau do Rosário, denodado lutador contra os nazis em Génova.

Post antigo do Pd'B sobre NicolauVer AQUI

[2894] No Madeiralzinho ninguém dorme, por causa dos ruídos... "sonoros" (ver legenda da notícia). Realmente, uma pessoa só consegue dormir com ruídos silenciosos...

sábado, 11 de março de 2017

[2893] SUBMARINOS À VISTA… (artigo escrito em 2006)

Emmanoel Oliveira "Monaya"
Praia de Bote resolveu juntar alguma documentação visual a este artigo de Emmanoel Oliveira e links para a biografia do comandante do U-68 da altura, Karl-Friedrich Merten (Ver AQUI) e a história do seu navio (Ver AQUI)

Estava o mundo em plena Segunda Grande Guerra e o oceano Atlântico era então dominado pelas forças do Eixo. Os submarinos germânicos não davam descanso aos navios que abasteciam o Reino Unido, eram particularmente temidos devido ao seu poder mortífero e silenciosa capacidade de destruição. A propaganda militar nazi incumbiu-se de espalhar uma imagem de terror e precisão na aniquilação do inimigo, as missões arriscadas e bem sucedidas multiplicavam-se, artigos sobre o assunto enchiam os jornais de ambos os lados da linha de fogo. O mar de Cabo Verde foi palco de algumas dessas manobras e recontros.

Na calma tarde de 27 de Setembro de 1941 a população de Tarrafal do Monte Trigo em Santo Antão foi agitada pelo súbito aparecimento de submarinos a escassos metros da praia. Eram cerca das dezasseis horas quando o primeiro submarino emergiu e não tardou que o Guarda Fiscal Rufino Lopes, acompanhado de três remadores, do sargento do pelotão ali colocado e do filho Crisanto, se aproximasse do submersível cujo único ruído que produzia era de marteladas ou batimentos como se estivesse a ser consertado.

O U-68
Ao apresentar-se na qualidade de autoridade da minúscula e mais do que pacata aldeia de Tarrafal, os homens armados com metralhadoras ligeiras no convéns da nave começaram a movimentar-se apressadamente, nisto o Guarda Fiscal achou que era prudente afastar-se e regressar à terra o mais rapidamente possível sem efectuar os procedimentos burocráticos habituais. Porém conseguiram aperceber-se que se tratavam de alemães.

Em estado de alerta, o pelotão de cerca de 45 homens do exército português, entrincheirado na praia, armado de espingardas e de uma metralhadora com tripé, não podia rechaçar o intruso, decidiram então enviar um mensageiro ao quartel do Porto Novo a quase 60 quilómetros de distância (via litoral).

Germano Delgado, rapaz nos seus dezasseis anos e mais um colega foram os escolhidos para a missão. Saíram da aldeia às dezoito horas, caminharam sem parar, sem descanso, rasgaram vales, montes e bocas de ribeiras para poderem entregar a importante missiva às seis da manhã do dia seguinte. Foi assim que Mindelo pode receber a informação e enviar um vaso de guerra para averiguar e intervir em caso de necessidade.

Durante a noite os submarinos desapareceram, no dia seguinte tudo voltou à normalidade. A criançada ajudava no transporte de munições para a trincheira incitando os soldados a dispararem as armas. Todos queriam ouvir nem que fosse um tiro só, o que não aconteceu. No pelotão ali colocado havia um sargento e um furriel, os restantes eram soldados, todos mondrongos, hospedados nas casas da família Ferro, na ocasião proprietária de toda a localidade.

Uns dizem que eram dois os submarinos, outros lembram-se de um único. Na verdade os relatórios militares revelam que eram quatro, sendo três alemães e um inglês.

Os germânicos precisavam encontrar-se numa baía calma e segura para trocarem de víveres e armamento entre si, para além de assistir um dos tripulantes que precisava de cuidados médicos com urgência. Foi assim que o U-111 e o U-68 ancoraram lado a lado na tarde de 27 de Setembro, há sessenta e cinco anos, a menos de 200 metros da praia. O barulho que se ouvia vinha das manobras de transbordo de quatro torpedos, enquanto os comandos dos dois submersíveis jantavam juntos, descontraidamente.

O HMS "Clyde"
O que os alemães ignoravam era que a combinação do encontro via rádio tinha sido captada e decifrada pelos ingleses, apesar da complexa e enigmática técnica de comunicação dos germânicos. Quando, por volta da meia-noite, por precaução, o U-111 e o U-68, resolveram afastar-se para o mar alto a aguardar o U-67 (o terceiro submarino), aparecem os ingleses no "Clyde" (submarino da classe River). Começaram então a troca de disparos de torpedos e muitas manobras de combate entre todos os submarinos presentes. É nesse preciso momento que chega o último submarino alemão, o U-67. Confundido com tantos sinais ou sombras no seu sonar, sem saber muito bem como proceder, não conseguiu evitar um violento embate contra o submarino inglês, ficou bastante danificado mas conseguiu afastar-se sem se afundar.

A tripulação do U-67 ouviu duas fortes explosões dentro da baía, deduziu que um dos submarinos foi atingido ou mesmo ambos tinham sido afundados. Uma outra versão insiste que as detonações deram-se em terra. Naquela noite porém ninguém no Tarrafal deu conta desse confronto bélico nem das explosões, a aldeia dormia como nos dias de hoje ainda dorme, calma e serena, na paz de Deus.

A rendição do U-111
Os submarinos dispersaram-se, cada um à procura de segurança no vasto oceano Atlântico. Finalmente, restabelecidos do susto, o U-67 conseguiu alcançar uma doca nazi na França após transferência de alguns torpedos para o U-68 na costa da Mauritânia, este depois seguiu para o Atlântico-Sul e continuar a sua missão. O U-111 dirigiu-se às proximidades das Canárias onde tinha por tarefa atacar comboios de navios que abasteciam os aliados. Devido a problemas mecânicos, foi subjugado e a tripulação presa por um rebocador civil armado apenas de uma metralhadora de 20mm. 

Do "Clyde" não temos noticias, perdemos-lhe o rasto.

Emanuel C. D’Oliveira


O Sr Germano António Delgado “o mensageiro”, hoje com 87 de idade, conta as peripécias do dia 27 de Setembro de 1941.

O Sr Crisanto Lopes tinha 12 anos quando se aproximou dos submarinos, acompanhando o pai em missão de serviço.