terça-feira, 29 de novembro de 2011

[0155] De novo, a London House

Já vimos a London House no post 0013, mas entretanto encontrámos mais um objecto desta prestigiada casa sanvicentina. Ele aqui vai: um álbum encadernado, com ornamentos art-nouveau e indicação do nome da casa e do seu proprietário, comportando cinco postais ilustrados a cores de cujo conjunto vemos dois bem conhecidos. A casa era chique, situava-se na Rua de Matijim e pertencia a João Joaquim Ferreira, conhecido como João da Boa Sorte. Aos artigos publicitados no anúncio do "Futuro de Cabo Verde" de 1 de Maio de 1913 pode juntar-se o objecto hoje divulgado. Vai ainda reprodução, também vista no post 0013, daquilo que julgamos ser a etiqueta retirada de algum artigo comercializado na London House.

Uma casa com "stil", dos tempos do gato de Mané Jom que aqui de certo modo refazemos. Afinal, para isso também serve o PRAIA DE BOTE...

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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

[0154] Nova crónica de Zito Azevedo

O DIA EM QUE NAUFRAGUEI…

Zito Azevedo
Eu fora a S. Tiago tratar da papelada para depois seguir para Angola, como funcionário administrativo, com guia de marcha, guia de vencimentos, protocolo de adiantamentos em numerário, requisição de passagem para Lisboa, etc. etc., um monte de papelada que me lembrei de acomodar numa daquelas pastinhas de capitão de palhabote, imitações de pele com um fecho de correr em três dos seus quatro lados e que dava ao portador um aspecto de pessoa ocupada e quase importante, carregando uma pasta negra repleta sabe-se lá de que segredos.

Corria o ano de 1956, estaríamos aí em Outubro ou Novembro e o dia tinha amanhecido carrancudo, lá na Chã de Areia, em casa de Ti Nanda, tia da minha, na  altura,  noiva,  e que era casada com Polú,  professor da Escola Técnica, mas um mestre em carpintaria, marcenaria, mecânica, engenharia naval e civil, electricidade, metalurgia, um homem para quem as ciências práticas não tinham segredo… Ficaram célebres os seus cachimbos extraordinários, especialmente os de raiz de roseira, as suas cadeiras de baloiço e muito mobiliário de mogno com acabamentos lacados, arte milenar que ele interpretava como ninguém. Este homem foi o mais completo repositório de conhecimentos que até hoje conheci e que até construíra o bote em que eu, nesse dia fatídico, haveria de naufragar…

Foto Joaquim Saial (clique na imagem)
Ao princípio da tarde, e debaixo de um céu plúmbeo de quase meter medo, lá fui para o cais do porto para apanhar um “gasolina” que me haveria de levar a bordo de um dos navios da Sociedade Geral de viagem para Lisboa via Porto Grande, fundeado a meio da baía. Foi na altura em que todos ouviram o lúgubre lamento do alarme da Capitania do Porto avisando a cessação de trânsito das embarcações mais pequenas por via da calema… Lá se ia a minha hipótese de chegar a bordo do navio que me levaria a S. Vicente e Lisboa.

A calema é uma situação, creio, característica das águas tropicais, em que de formam  ondas por vezes de grande porte, entre curtos períodos de acalmia quase podre… Não me parece que se saiba quando e porque se formam e também julgo que ninguém saberá quando vai a calema amainar, o que quer dizer que eu estava metido numa camisa de onze varas, pois nem com uma gratificação extra se conseguia uma oferta de transporte. Foi quando o Tio Polú se lembrou do botezinho que tinha construído, meses antes, no seu estaleiro privativo de Chã de Areia. O bote era minúsculo e éramos eu, o moço dos remos, a minha mala da roupa e a minha preciosa pastinha de mão, repleta de documentos e bastante dinheiro para a época… As ondas da calema, dizem, acontecem de sete em sete mais pequeninas, quase imperceptíveis e foi num desses hiatos de acalmia que nos lançamos à água fria do porto, com o navio à vista mas parecendo tão distante…Tão distante, efectivamente, que nunca chegámos a alcança-lo. Creio que, se não foi à primeira foi à segunda ondona que o barquinho ficou repleto de água mas, graças a Deus manteve-se à tona e nós muito sentadinhos comigo segurando a alça da minha mala e a pastinha apertada debaixo do braço, com toda a pressão possível. Estaríamos a entrar em pânico, quando ouvimos uma voz gritar o conhecido “homem ao mar!”… Levantámos os olhos e lá estavam três ou quatro marinheiros à ré de um navio de casco escuro e altíssimo, para cujas cercanias a onda nos tinha arrastado! Um deles segurava uma bóia, que nos foi lançada segura a um cabo, enquanto nos recomendavam que não tentássemos levantar-nos pois sentados estaríamos mais seguros. Tudo se passou com tal rapidez que nem deu tempo para pensar em ter medo e poucos segundos depois estávamos a ser içados para bordo, a minha mala e a minha pastinha bem seguras, molhados até aos ossos mas felizes como passarinhos acabados de libertar da gaiola...

Vesti um pijama do capitão do cargueiro português que nos havia “pescado” e o meu companheiro uma farda de trabalho de um tripulante, enquanto a nossa roupa secava e, como a noite já tinha caído e as emoções abrem o apetite, não nos fizemos rogados quando o capitão nos convidou para jantar. Foram momentos de descontracção que vieram a calhar depois daquele estranho naufrágio mas, terminada a refeição e seca a nossa roupa, regressei à terra e constatei que o problema, afinal, subsistia e até se agudizava pois, momentos antes, tinha assistido à saída do navio a bordo do qual eu era suposto estar, a caminho de S. Vicente… e no mar, havia calema!

Foi quando o capitão me levou perto da amurada e apontando para um grupo de tripulantes do navio me disse:
-Meu amigo, estes são os oito melhores remadores que tenho a bordo. Se você os convencer a levá-lo e ao seu companheiro, a terra, eu autorizo a utilização de um dos escaleres salva-vidas do navio!

E ilustrava a palavra “convencer”, esfregando, significativamente, o polegar no indicador da mão direita… Claro que não levei muito tempo a negociar e ofereci 500 escudos, de caras; o patrão fez notar que eram oito, eu percebi a lógica aritmética e meia hora mais tarde, lá fomos, cavalgando as ondas da calema, eu, o meu remador – que não tinha dito mais do duas palavras desde que saíramos de Chã de Areia – a minha mala da roupa e a preciosa pastinha negra onde, pasme-se, não entrara uma única gota de água!
Havia sobrevivido ao meu primeiro naufrágio e, como contarei um dia, acabei por chegar a Angola!

Zito Azevedo
Queluz, 21 de Novembro de 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

[0153] Zona central da Praia de Bote (areia e Atlântico) ou coisa parecida



À semelhança dos dois posts anteriores, este é dedicado aos visitantes que gostam de "não comentários"... Ou seja, aos que nos visitam mas não colaboram. Com a amizade de sempre. Porque no PRAIA DE BOTE todos cabem...

domingo, 20 de novembro de 2011

[0152] Mar na Praia de Bote


Ora aqui está!... Uma fotografia excelente, para os apreciadores de "não comentários". O mar na Praia de Bote. Haverá outro assim? Caro leitor, não se distraia e não comente. Esta é uma imagem para "não comentários".

sábado, 19 de novembro de 2011

[0151] Céu na Praia de Bote


Dado o elevadíssimo número de comentários aos posts do PRAIA DE BOTE (como se pode bem ver nos imediatamente atrás), o blogue arrepia caminho, pois não quer maçar os muitos leitores que aqui vêm com imagens complexas e coloca outras mais calmas, passíveis de "não comentários". Começamos por uma que desde logo se percebe ser o céu da Praia de Bote. Quem não conhece este espaço inconfundível que cobre não só a Praia de Bote como a baía do Porto Grande, o Mindelo, a ilha de S. Vicente, o restante Cabo Verde, toda a África e o resto da Terra? Ora aqui está algo que não precisa de comentários... No próximo post mostraremos o mar da Praia de Bote e noutros o ar da dita praia, a sua areia e por aí fora. Uma maravilha, mesmo boa para "não comentários".

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

[0150] A "Sagres" e o Mindelo

Soube hoje que o porto que a "Sagres" mais tocou nos seus 50 anos de vida ao serviço da Marinha de Guerra Portuguesa como navio-escola, a seguir ao do Funchal, foi o do Mindelo. Não fixei o número de vezes, dado o excesso de informação absorvida em algumas horas de inesquecível visita ao navio, mas recordo que excede as três dezenas. Gabo-me de, em pelo menos duas delas, a segunda e a terceira, ter estado em S. Vicente e lá ter ido com o meu pai. Voltar ali, tantos anos depois, ainda por cima como convidado, fez deste dia uma data muito especial... para recordar.

A "Sagres" está neste momento na Base Naval de Lisboa (Alfeite) em preparos que lhe darão especial brilho para as cerimónias do cinquentenário a efectuar no próximo ano. E atenção aos admiradores da velha barca (já com quase 75 anos na totalidade - datada de 1937, Hamburgo, Estaleiros Blohm & Voss) que em Fevereiro de 2012 estará aberta ao público. A visita valerá a pena, como sempre. Seguem algumas fotos fresquinhas, feitas ao início da tarde de hoje... dedicadas ao nosso coronel Adriano Miranda Lima, homem cujo cérebro está na Infantaria mas em cujo coração residem o mar e a Armada.

Resta dizer que este é o post 150. Comemorado com fotos da "Sagres", o número ainda fica mais bonito.

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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

[0149] Texto de Adriano Miranda Lima _____________ À memória da minha avó materna Rosa Isabel Monteiro RECORDANDO AS MINHAS PRIMEIRAS FÉRIAS EM SANTO ANTÃO

Adriano Miranda Lima
Em outra narrativa evoquei a minha primeira viagem marítima a bordo do lugre “Senhor das Areias”. O destino foi a ilha de Santo Antão e o motivo umas férias na companhia da minha avó materna. O meu deslumbramento com a ilha de Santo Antão e o caudal de emoções despertado no decurso dessas férias tinham de ser também resgatados do fundo do baú da minha memória, onde se conservam quase intactos, passados 62 anos.   

Até ao momento em que embarquei para a ilha vizinha, os arquétipos sobre a realidade erigidos no meu imaginário de criança eram o que permitia a insipiência da idade que eu tinha. A minha noção do mundo físico abrangia apenas o espaço da zona onde morávamos, rua do Matadouro Velho, a orla do porto e o seu cais, e a casa dos avós paternos. Pouco mais, tirando uma ou outra ida ocasional à Cova da Inglesa (1), à Ribeira do Julião e ao Lameirão. A Cova da Inglesa merece, no entanto, e num breve parêntese, uma menção especial nesta introdução porque era o lugar que o meu pai escolhia para me levar a um primeiro contacto com o mar, até aos meus 6 anos. Bom nadador, ele levava-me muitas vezes às costas, que eu agarrava utilizando as mãos como se fossem tenazes, tal a aflição que sentia à medida que entrávamos água dentro. Mas o acontecimento mais importante, se não mesmo o principal móbil das deslocações domingueiras à Cova da Inglesa, era o lançamento de um papagaio que o pai confeccionava na véspera à noite, munido de canas, papel, cola e cordel, com que chegava a casa à noite, no regresso do trabalho. Era excitante ver o papagaio libertar-se da prisão e rasgar a trajectória vertical do seu vaivém ao sabor da linha que o prendia. Foi com essa experiência que comecei a perceber, na sua elementaridade, a noção de distância, escala e perspectiva.

Mas entremos agora em Santo Antão, mais concretamente na Vila de Ribeira Grande. Expliquei na crónica anterior o que foi a deslocação de Ponta de Sol àquela vila. Dias depois de chegar à ilha, comecei logo por notar a diferença fonética no falar das pessoas, com tendência a abrir o “e” mais do que em S. Vicente. Curiosamente, essa especificidade da pronúncia local, em vez de me soar como algo adverso, teve o condão, já naquela tenra idade, de me parecer associada a um falar mais meigo e mais amistoso. E essa impressão ficou-me para sempre impregnada nos sentidos, tanto que, regressando a S. Antão décadas depois, ao dirigir-se-me, com oferta de transporte, o condutor de uma carrinha Toyota Hiace, exclamei para mim mesmo, depois de o ouvir falar: - Pronto, já estou em Santo Antão. E senti-me em casa.

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Seguir-se-iam paulatinas descobertas conforme os espaços físicos que me iam sendo permitidos. Desde logo, a sensação mais impressionante foi a visão das montanhas espectaculares e dos belos vales da Ribeira da Torre e do Mompatrás, onde corria água e se apanhavam camarões, sobretudo no último, e onde abundavam culturas e árvores de fruto pouco comuns em S. Vicente. É evidente que tudo isso se foi desvendando à medida que, pela mão da avó ou de outras pessoas, ia sendo levado de visita a esses lugares.

À noite, ocorreu, à certa altura, um acontecimento a que não estava habituado e se repetiria por vários dias. As cagarras demandavam as montanhas defronte ao mar, para se acolherem ou para nidificarem, e a estridência roufenha do seu grito intrigava-me seriamente porque não sabia se eram pássaros de verdade ou se misteriosos seres alados ou almas penadas. Num tempo em que eram férteis as estórias de gongom, pode o leitor crer que a “fantasmagoria” daqueles visitantes nocturnos causava-me perplexidade, ainda que a avó me garantisse que eram mesmo pássaros marinhos. Mas mais confuso viria a ficar ao vê-las à venda em algumas mercearias, depenadas, abertas e secas como o peixe que também se vendia nas mesmas condições de conservação. Algumas pessoas as compravam para consumo humano, mas isso é coisa que nunca provei. Não conseguia vislumbrar naquelas figuras disformes qualquer semelhança com um pássaro.

Em S. Antão, passou a ser menos frequente o consumo de peixe fresco, visto que a pesca artesanal não tinha uma organização e dimensão semelhantes às da minha ilha natal. Se a nossa pesca era artesanal em todo o arquipélago, mais rudimentar era-o ainda em santo Antão. Com frequência, via botes no mar frente à vila a pescar melon (2) com recurso a dinamite, que explodia e deixava o pescado morto a boiar à superfície, o que só por si denuncia as limitações da pesca artesanal local. Com efeito, usar dinamite evitava o risco de aventurar-se por mar dentro e além disso poupava tempo e energia. Lembro-me de que os botes andavam por aí, acima e abaixo, à cata dos cardumes, e quando avistavam um alvo remunerador soavam as explosões, tantas quantas as necessárias para uma pescaria compensadora.

A nossa dieta alimentar passou a revestir algumas particularidades locais, o que a diferenciava um pouco dos hábitos de S. Vicente. Por exemplo, não havia fabrico de pão em S. Antão, consumindo-se bolachas das de trigo fabricadas nas padarias mindelenses do Manuel Matos e do Jonas Wahnon e que eram exportadas para todas ilhas de Cabo Verde, segundo hoje calculo. A batata doce assada no fogão de lenha do quintal era uma iguaria frequente e consumíamo-la às vezes como substituto do pão ou acompanhante de peixe seco assado e outros pratos. Batata doce barrada com manteiga de terra era bem saborosa. A ervilha verde guisada com mandioca, inhame e carne de porco salgada era na altura um prato mais frequente que em S. Vicente. E, é claro, mais manga e papaia passei a consumir, além da goiaba, jambo e outras frutas mais raras que eu desconhecia. Ah, o melaço da cana sacarina por vezes era usado como substituto do açúcar, o que dava ao café um gosto característico que ainda recordo, entrando também na confecção do delicioso doce de papaia verde.

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As festas de S. João foram um evento que pela primeira vez vi com outros preparos e envolvimentos. As romarias passavam em grande tropel em direcção a Porto Novo, onde eclodia a festa em todo o seu esplendor profano. Vinha gente do interior da ilha, a maior parte a pé, ostentando ramos de palmeira enfeitados, mas muitas pessoas também a cavalo, de mula ou de burro, em meio ao rufar dos tambores de pele de cabra e apitos ruidosos, tudo em ritmo alucinante e tendo o binómio homem-naviozinho (3) rodopiante como figura central. E era assim que os dias que precediam a festa do S. João logravam quebrar a monotonia rural das vilas, aldeias e lugarejos por onde passavam as ruidosas romarias de colá Sanjom rumando a Porto Novo.

Certo dia, um afilhado da minha avó levou-me de visita a Coculi, à garupa de uma mula. O objectivo era passar uns dias na localidade e foi quando vi pela primeira vez o trapiche em actividade. A certa ocasião, parei, distraído, no trajecto circular do boi, sem me dar conta de que os bichos estavam impossibilitados de desviar-se do seu curso, salvo se algum reflexo do seu instinto animal os travasse. Foi então que me senti repentinamente agarrado no ar por duas mãos adultas, com um circunstante a considerar: - Ah, mas não haveria problema porque os bois paravam. Não sei se paravam ou não, mas, pelo sim pelo não, houve duas mãos salvadoras que em devido tempo acudiram.

Recordar aquele tempo de Santo Antão é também falar nas chuvas torrenciais que nesse ano desabaram com a incontinência a que por vezes se permite a mãe natureza, coincidindo com a minha presença na ilha. O ribombar dos trovões a ecoar medonhamente nas montanhas, assim como a ribeira caudalosa que se formou à entrada da vila, obrigando a que as pessoas fossem transportadas às costas de uns passadores de serviço para poderem transitar para o lado oposto, são registos inesquecíveis. As chuvas ininterruptas por alguns dias foram tão intensas que houve uma procissão nocturna na vila, com velas acesas e o padre Figueiredo (4) à frente, tal o sentimento de apreensão que se apoderou da população. Na sequência dessas violentas chuvas, formou-se uma lagoa numa área de cota baixa, entre a vila e o mar, que mais tarde passaria a ser um local de banhos e divertimento para a meninada. Quando assentou o barro diluído nas cheias, a água ficou límpida e não tardou que, mais tarde, nela surgisse alguma vida aquática. Foi quando também fiquei a conhecer a habilidade de uns rapazes mais velhos que fabricavam muito sugestivos naviozinhos de pau de purgueira que, munidos de uma velinha de farrapo, animavam o lago em porfiadas regatas. Essas mesmas regatas liliputianas via-as em reprodução real no mar em frente quando os veleiros vindos de S. Vicente apanhavam calmaria e imobilizavam-se no mesmo sítio, sedentos de um sopro de aragem, por vezes retrocedendo, por força de correntes contrárias, até imediações da ponta da Sinagoga. Certo dia de grande e prolongada calmaria, um falucho quase que arribava à praia, impelido pelas correntes, tendo sido necessária a força de remos para impedir o seu encalhe.

O mar é um regaço a um tempo atractivo e desafiador. Junto às pedras onde as ondas se quebravam, apanhavam-se com facilidade pequenas moreias com uma linha e um simples anzol improvisado, passatempo proveitoso para o estômago a que assisti na companhia de um rapaz mais velho.

Outras tantas sensações preencheram o meu imaginário de criança em S. Antão, na altura virgem e ávida de descobertas e revelações. Foi essa vivência que me inculcou os primeiros sintomas de um sentimento telúrico que viria a tanger toda a plenitude do meu ser. O que a minha ilha natal não me tinha ainda proporcionado ofereceu-mo a ilha vizinha no deslumbre da sua cosmogonia, com a admirável compleição megalítica das suas fragas abruptas e a generosidade do seu úbere materno jorrando delícias em recantos de suprema beleza. E tal foi a dádiva que nunca a deixei por mãos alheias, ciente de que eu e ela somos feitos do mesmo barro amassado por uma qualquer divindade. É claro que o sentimento místico, entre o espanto e o embevecimento, com que encerro esta narrativa, é o resultado do acúmulo de impressões colhidas em visitas posteriores, mas a verdade é que tudo começou com a inocência pura dos meus 6 anos de idade.

Tomar, 11 de Novembro de 2011

(1) Lugar antigamente muito usado para banhos de mar, como ainda hoje se usa, embora talvez menos. O nome se deve ao facto de ter sido sepultada no lugar, no século XVIII, uma inglesa falecida a bordo de um navio inglês que passava perto da ilha. Lembre-se de que na ilha não existia ainda nenhuma comunidade humana propriamente dita.
(2) Nome que se dava, ou ainda se dá, em S. Antão, ao peixe da espécie cavala.
(3) Um pequeno navio com uma abertura central em que entra um homem para o movimentar como se navegasse.
(4) Nunca me esqueci do nome do pároco porque era amigo da minha avó e foi sendo referido ao longo dos tempos.

sábado, 12 de novembro de 2011

[0148] Velhas recordações do “Novas”…

Zito Azevedo
Ao rever, aqui no PRAIA DE BOTE, as elegantes silhuetas do “Ernestina” e do “Maria Sony” (post anterior), recordei um outro – talvez o mais elegante deles todos – o “Novas de Alegria”, em que, num dia de pouca sorte, resolvi viajar.

Corria o ano de 1956 e estava eu na Brava – Nova Sintra – onde tinha passado breves semanas despedindo-me da que haveria de ser minha esposa no ano seguinte, pois estava de abalada para Angola…

Dizia-se do “Novas” que era navio rápido, ou não fosse um iate a que, claro, haviam sido impostas algumas alterações no sentido de lhe aumentar a capacidade de carga e de espaço para passageiros… Ao fazê-lo, no entanto, julgo que se terá tomado uma iniciativa perigosa – a de diminuir de forma radical o volume da quilha… Como se sabe, a quilha dos iates é muito característica no desenho e no tamanho, creio que necessários para responder a exigências da física de contra-balanço com o altíssimo mastro. Sem parte importante da quilha e do lastro ganhou-se “espaço” para mais carga mas, infelizmente, o navio perdeu, quase por completo, a estabilidade lateral.

"Novas de Alegria" (clique na imagem)
A minha viagem, adiada por diversas vezes pois esta coisa de a gente se despedir da namorada – quase esposa – não é fácil, é doloroso, demorado, tira-nos o sono, aumenta-nos a ansiedade e dá direito ao que eu chamaria de síndrome da orfandade… Creio que há muito de filial no amor de um homem por uma mulher e o objecto do nosso amor acho que tem sempre uma aura de maternidade onde se alojam alguns dos nossos sentimentos mais disponíveis, como o respeito e a admiração… Fica-se absorto, envolto numa espécie de solenidade angelical tão grandiosa como se fosse o último segundo de uma breve eternidade, irrepetível, único, irreal, como o são, afinal todos os segundos da nossa existência.

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Quando acordei para a realidade do mundo real, o “Novas” baloiçava, de velas recolhidas e o motor auxiliar roncando lá nas profundezas do casco robusto, abandonando o porto da Furna… Olhando para o largo, foi com alguma apreensão que vislumbrei a imensidade de “carneiros” que se iam acumulando na crista da ondulação cada vez mais cavada, enquanto o veleiro transpunha os obstáculos cinzento-azulados, como se se tratasse de um cavalo branco esvoaçante… Algo me dizia que apesar da beleza telúrica do enquadramento, com aquele tempo e naquele iate, eu jamais chegaria à Praia… É que, se o canal para o Fogo estava daquele jeito eu podia calcular como estaria o Alcatraz!

Então, ali mesmo, à ré do navio, enquanto um reverendo lançava ao mar golfadas de um castanho igualzinho ao da sua capa de franciscano (comigo pensando que lá se ia o leite-com-chocolate…) decidi que desembarcaria em S. Filipe e depois… depois logo se veria!

Costuma dizer-se que todos os malandros têm sorte, muito embora eu não fosse um malandro e já tivesse experimentado dose suficiente de falta de sorte para um só dia!  Eu explico…

Quando havia carga e passageiros que o justificasse, o avião Dragon Rapid (um asa dupla em lona que transportava umas tantas malas, uns tantos garrafões e sete passageiros além, claro, do piloto!). Para o aviãozinho se deslocar, no entanto, era necessário mandar um telegrama e 24 ou 36 horas depois o Dragon lá aparecia. Na época, não havia serviço telefónico para fora do Fogo… Quer dizer: não havia mas ia ser inaugurado nessa manhã! A sorte do malando…

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Depois de muita conversa, muito pedido, muitos sapos engolidos, ficou combinado que logo a seguir ao telefonema protocolar de inauguração do serviço, seria feito o primeiro de carácter comercial para os TACV para fazer deslocar o avião, onde havia mais do que suficiente de carga e passageiros a justificar a deslocação.

Enfim, poucas horas depois eu, o piloto mais seis pessoas muito agradecidas, dez malas e seis caixas de pintainhos amarelos que não se calaram a viagem toda, cruzávamos os céus até ao aeroporto da Praia!

Respirei de alívio pela primeira vez nesse dia, mal sabendo que o trajecto seguinte, para S. Vicente, para embarcar, no dia seguinte, para Lisboa a caminho de Angola, ia dar pano para mangas…

Mas isso são contas de outro rosário!

Zito Azevedo

Queluz, 11 de Novembro de 2011
Imagens do arquivo do PRAIA DE BOTE

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

[0147] Ainda Teixeira de Sousa. Texto do comandante Conceição e Silva (da Armada portuguesa), por ocasião do lançamento do derradeiro livro do autor cabo-verdiano, "Ó Mar de Túrbidas Vagas", em 2006

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Este artigo, que já conhecíamos, foi-nos enviado pelo nosso colaborador Adriano Miranda Lima. Vantajosa colaboração, porque escrita em Word, que facilita imenso o trabalho de aqui o reproduzirmos. É texto demasiado longo para blogue, mas que no caso tem o poderoso aliciante de se referir a personalidade intelectual e científica muito do nosso comum agrado (meu, do Adriano e dos restantes cabo-verdianos interessados pelas coisas da sua terra). Da autoria do Comandante da Armada Portuguesa Conceição e Silva, foi publicado na “Revista da Armada” de Junho de 2006. O autor  surpreende-se com os profundos conhecimentos náuticos de Teixeira de Sousa e demonstra o seu apreço pelo escritor. E ainda por cima insere duas imagens de barcos nossos velhos conhecidos, o "Ernestina" e o "Maria Sony". Tudo motivos para saborosa leitura em que se rememoram factos da grande (e trágica) história marítima das ilhas.


HOMENS E NAVIOS NA OBRA DE TEIXEIRA DE SOUSA

Em 3 de Março do ano corrente, em Oeiras, quando fazia a sua marcha diária, o escritor Henrique Teixeira de Sousa, de 87 anos de idade, foi atropelado por um automóvel. Poucos meses antes tivera lugar o lançamento de “Ó Mar de Túrbidas Vagas”, o seu ultimo livro. “Último”, no sentido de “mais recente”, pois foi publicado em fins de 2005; mas “último” também como “derradeiro”, já que o escritor veio a falecer em consequência dos ferimentos sofridos. Assim, duma forma cruel e estúpida, perdeu a literatura cabo-verdiana de expressão portuguesa um grande autor, de cujo talento, não obstante a sua idade já avançada, muito havia ainda a esperar.

Teixeira de Sousa era natural da Ilha do Fogo, onde nasceu em 1919. Licenciou-se em Medicina, que exerceu profissionalmente, conciliando essa actividade com a de escritor. Em 1972 escreveu um livro de contos, “Contra Mar e Vento”, ao qual se seguiram vários outros, entre eles “Capitão de Mar e Terra” e “Ilhéu da Contenda” (que alguns consideram a sua melhor obra). E, finalmente, em 2005, o romance “Ó Mar de Túrbidas Vagas”.

A temática marítima é uma constante em toda a sua obra, o que justifica que a “Revista da Armada” lhe dedique uma singela homenagem, comentando-a junto dos seus leitores, que constituem um público muito especial, não só por estarem tecnicamente preparados para a entender e apreciar como também porque alguns deles poderão mesmo recordar factos descritos nos livros ou as realidades que serviram de inspiração a descrições fantasiadas.

Muitos leitores da “Revista da Armada” estiveram em Cabo Verde, em comissões nas Ilhas ou em estadias mais ou menos prolongadas em S. Vicente, especialmente nas décadas de 50 e 60. Por isso, conheceram bem aquelas terras e as suas gentes, e sabem quanto o pessoal da Marinha apreciava as permanências no Mindelo. Cabo Verde e a Marinha de Guerra Portuguesa sempre se relacionaram amigavelmente, processando-se o convívio entre marinheiros e naturais duma forma cordial e simpática. Essa estima recíproca está simbolizada num ícone bem conhecido - a morna “Barca Sagres”, da autoria desse grande compositor que foi B. Léza. Trata-se de uma peça musical só possível num ambiente de fraternidade e respeito mútuo, como o revela a sua letra: o avistamento do navio ao largo é saudado com alegria (“Selô Selô, é barca SAGRES!”), sendo-lhe atribuídos epítetos carinhosos e poéticos (“noiba di mar”, “ama di marinhero”), expressões que a morabeza cabo-verdiana reserva apenas para quem merece a sua afeição - sejam pessoas, sejam navios.

Deve ainda haver quem se recorde dos veleiros que faziam a cabotagem entre as ilhas, ou as viagens mais longas para Dakar ou para a América, em especial para Providence e New Bedford. Estes veleiros eram, na sua maioria, embarcações velhas, adquiridas em segunda-terceira (ou “enésima”) mão, na América e em outros lugares, depois de terem sido postas de parte por extinção das actividades em que eram utilizadas. Assim se explica a insólita presença, na frota de veleiros do Arquipélago, de navios das mais diversas origens, espécies e idades, como o “ERNESTINA”, americano, de 1894; do “MARIA SONY”, canadiano, de 1911; do “MADALAN”, ex-iate de luxo transformado em cargueiro; do “WALKIRIA”, um baleeiro; e até do “CORIOLANUS”, um ex-clipper americano. Todos estavam em fim de vida útil quando foram adquiridos, mas ainda navegaram ao longo de muitos anos, servindo as ilhas na cabotagem e nas viagens de longo curso, transportando passageiros e carga em condições económicas e de segurança muito precárias e difíceis. A última “importação” de um navio da América teve lugar em 1970, mas correu mal: consistiu numa tentativa de trazer para Cabo Verde um veleiro de cerca de trinta metros, chamado “CAPE EAGLE”, que já não navegava há cinco anos: afundou-se a 185` a NW das Bermudas, felizmente sem perda de vidas…

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A saga desse navios e dos homens que os tripulavam e as terríveis dificuldades e perigos de todas as naturezas que enfrentavam constituem uma lição de coragem e perseverança que merecia ser melhor conhecida. Desde os tempos em que a sua actividade marítima no Arquipélago se limitava ao embarque de tripulantes nos baleeiros americanos, até à da construção ou compra dos primeiros veleiros e, posteriormente, da constituição duma pequena frota de cabotagem e de navegação atlântica, os marinheiros de Cabo Verde trabalharam em condições de certo modo assimiláveis, no que às dificuldades e perigos respeita, às enfrentadas pelos marinheiros de séculos anteriores. As condições de sobrevivência económica eram extremamente difíceis e só pessoas de muito rija têmpera as conseguiam suportar.

É precisamente esta a realidade que serve de pano de fundo á obra de Teixeira de Sousa que, a par dos enredos dos contos e dos romances, deixou escritas páginas imorredoiras de literatura marítima de inexcedível perfeição.

Quando um marinheiro lê livros desta natureza, escritos ou traduzidos por quem não é profissional do mar, está de antemão preparado para encontrar erros na aplicação dos termos, incongruências e até, por vezes, autênticos disparates que tornam incompreensível o que o autor quer realmente dizer. É, portanto, com agradável surpresa que quem não conhecia Teixeira de Sousa vai, a pouco e pouco, ao longo da leitura, constatando que tudo o que se refere a temática náutica está exposto com absoluto rigor. E mais: que a descrição dos ambientes e das manobras revela que o autor compreendia perfeitamente aquilo de que estava a falar. As vozes de comando e os termos para se referir às questões de marinharia são correctos, e as manobras complexas de vela, de fundear, de suspender, a subida de um navio a um plano inclinado rudimentar, e todos os mil e um problemas da vida a bordo de um veleiro são descritas tal qual como teriam ocorrido na realidade!

Literatura deste tipo encontra-se num Celestino Soares, num Conrad, e em alguns outros autores. Mas todos eles eram profissionais do mar, pelo que não faria sentido que se exprimissem doutra forma. Teixeira de Sousa era médico, especialista em saúde pública, com muitos trabalhos publicados e larguíssima experiência nesse sector. Como é então possível que tenha alcançado tamanha mestria e domínio em assuntos marítimos a ponto de ser impossível detectar uma única incongruência, ou o mais leve erro técnico, na sua prosa escorreita, simples, levemente irónica mas incontestavelmente rigorosa? Qualquer marinheiro da actualidade aprenderá nos seus livros coisas em que provavelmente nunca pensou – desde a melhor forma de utilizar as velas para aproveitar um aguaceiro e atestar tanques de aguada quase vazios a outras técnicas igualmente inéditas, curiosas e específicas de um ramo de saber hoje já quase esquecido. Por tudo isto me atrevo a comparar Teixeira de Sousa a Patrick O’Brian, que, não sendo marinheiro, atingiu um grau de perfeição na literatura marítima só alcançável por quem conhece profundamente e compreende perfeitamente aquilo sobre que escreve.

Com a morte de Teixeira de Sousa perde-se ainda o sentido de linhas de conexão entre assuntos referidos em obras anteriores que se prolongavam ou completavam noutras mais recentes. Assim sucede, por exemplo, com o naufrágio do “EMA HELENA I”, magistralmente descrito no conto “Contra Mar e Vento”: fica a saber-se, em “O Ilhéu da Contenda”, que afinal o Capitão Fortunato não foi vencido pela adversidade; lutou contra ela e acabou por conseguir vencer, comprando outro navio, o “EMA HELENA II”! A descrição do naufrágio é feita em termos que lhe dariam justo lugar em qualquer antologia trágico-marítima, enriquecendo-a ainda mais a transcrição de um “Protesto de Mar” (comentado) cujo realismo e exactidão formal revelam que Teixeira de Sousa tinha, também, conhecimentos sobre Direito Marítimo, e compreendia perfeitamente as questões jurídicas subjacentes às situações que descrevia.

Igualmente se perde a fonte de curiosos apontamentos de “pequena história”, com interesse para a Marinha (Marinha de Guerra e Marinha Mercante), como por exemplo a questão da intervenção (real?, fictícia?) de “Custódio Rocha”, o competentíssimo capitão de veleiros que andara embarcado no “ARCHIBALD RUSSEL”, e que teria sido convidado, devido aos seus muitos conhecimentos e grande experiência, para treinar a primeira guarnição da primeira “SAGRES”, quando esta entrou ao serviço - assunto a que, de forma pouco clara, Teixeira de Sousa alude em “Capitão de Mar e Terra”.

Interessante é também a referência, no mesmo livro, às actividades dos SOKOLS, (quem imaginaria a sua existência?) e o esclarecimento definitivo do caso do italiano devorado por um tubarão na Matiota, facto que, com o correr dos anos, se não sabia já se tinha acontecido ou se era apenas uma lenda: aconteceu realmente na década de trinta, e deu lugar à colocação da rede que os prestimosos SOKOLS, com a ajuda do Capitão Alfredo Araújo, implantaram na baía!

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O enredo de “Ó Mar de Túrbidas Vagas” é leve e divertido. O escritor Germano de Almeida, outro nome grande da literatura cabo-verdiana contemporânea, descreveu-o sinteticamente como “a luta do capitão Hilário Cardoso, comandante de um veleiro em viagem de Providence e New Bedford para S. Vicente e Brava, entre o sagrado princípio de se manter fiel à sua legitima esposa e as provocações de uma bela passageira que todos os dias inventa novas maneiras de quebrar essa fidelidade persistente…”

O aprofundamento do assunto e o seu desfecho interessaria com certeza aos leitores da “Revista da Armada”, por motivos óbvios; mas, na perspectiva deste texto, contar o que acabou por suceder não constitui prioridade: o que importa é chamar a atenção para a globalidade da obra deste autor e sublinhar o seu interesse para quem goste de boa literatura náutica e/ou, em termos mais gerais, tenha ligações afectivas com a acolhedora e inesquecível terra de Cabo Verde, como sucede certamente com os leitores desta Revista.

Comandante G. Conceição Silva

Nota do PB: Trata-se do comandante Guilherme George Conceição Silva, prestigiado oficial da Armada, filho do conceituado astrónomo, astrofotógrafo e professor da Escola Naval Eugénio Correia Conceição Silva, também oficial da Marinha de Guerra Portuguesa.

domingo, 6 de novembro de 2011

[0146] Henrique Teixeira de Sousa, quase seis anos... (ver três posts anteriores)

Foto Joaquim Saial. Os meus livros de Henrique Teixeira de Sousa, alguns autografados (clique na imagem)

Conheci Henrique Teixeira de Sousa como presidente da Câmara Municipal de S. Vicente de Cabo Verde e como pai do meu amigo e condiscípulo do Liceu Gil Eanes Aníbal Orlando "Landim" Teixeira de Sousa, nos idos de meados de 60 do século passado. Nunca soube na altura (eu era um simples miúdo de onze ou doze anos, preocupado com outras coisas) da sua importância como médico, homem de letras ou até que era filho de um capitão John da longa carreira à vela entre os Estados Unidos da América e Cabo Verde.

Um dia, súbita e precocemente, a esposa faleceu. Nao fui ao funeral mas estive no velório, realizado na sua casa quase fronteira ao liceu. Lá estava o Landim, a quem dei um abraço, naquele quartinho com beliches onde ele dormia com o irmão mais velho. Dia mais que triste, como não podia deixar de ser...

O tempo passou. A ligação perdeu-se por décadas. Mas foi reatada, algures nos anos 90, lá por 1998, mais ou menos. O Landim, agora médico em Portugal, esteve em minha casa a almoçar, com a esposa. Tarde inesquecível, de reavivar de memórias comuns, sempre com Cabo Verde como pano de fundo.

Em 12 de Novembro de 2005 (há seis anos quase certos), revi o Dr. Henrique Teixeira de Sousa, no Restaurante Caravela de Ouro, em Algés, onde a Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde (da qual sou sócio) lhe fez justa homenagem. 

Foto Joaquim Saial. Henrique Teixeira de Sousa, discursando na homenagem feita pela AAAESCV no restaurante Caravela de Ouro, Algés, em 12.Novembro.2005 (clique na imagem)

Em 14 de Dezembro do mesmo ano, reencontrei-o no lançamento do seu derradeiro livro, "Ó Mar de Túrbidas Vagas", na Casa da Morna, em Lisboa, e fiz aquelas que serão eventualmente as últimas 24 fotos da sua vida.

No dia 3 de Março de 2006, um estúpido acidente ceifou-lhe a vida. Faleceu nessa data, vitima de atropelamento, em Algés. Fui ao seu velório, como já fora ao da primeira esposa, décadas antes. A 9 de Março, foi cremado no cemitério dos Olivais, onde esteve presente um conjunto de cerca de uma centena de pessoas, familiares, amigos e admiradores que o quiseram acompanhar no último acto da sua passagem pela terra. Coube-me, a pedido da presidente da AAAESCV, Nominanda Fonseca, a oração fúnebre, singelas palavras que duraram três ou quatro minutos, antes de o seu corpo se transformar em cinza que agora repousa no Fogo natal.

NOTA: Ver também excelente texto de Adriano Miranda Lima no blogue "Na Esquina do Tempo".

Foto Joaquim Saial. Lançamento de "Ó Mar de Túrbidas Vagas", em 14.Dezembro.2005. Na mesa, Elsa Rodrigues, o editor da Plátano, Henrique Teixeira de Sousa e José Luís Hopffer Almada. Atrás, Tito Paris (clique na imagem)

[0145] Texto muito interessante, sobre um tempo desaparecido, o dos "shipchandlers" do Porto Grande (ver posts 144 e 143)

in jornal "Terra Nova", de Outubro de 2011.

O administrador do PRAIA DE BOTE ainda apanhou os restos destes tempos gloriosos do comércio mindelense. Alguns destes nomes sobreviviam ainda, nos anos 60, mas tinham entrado em cena outros, como o Benvindo, a Loja do Leão e a Casa Serradas (alguns de que ele se lembra). Chegar a "Sagres" ou outro navio de guerra português, por exemplo, era sinal de que era certo e sabido que muitos dos membros das suas guarnições trariam para Lisboa rádios de transistores Sony e Philco, relógios Cauny ou televisões Sony. Sim, televisões Sony, que não serviam para nada na ilha mas que ali eram vendidas a gente dos barcos que as trariam para terras onde o sinal de TV funcionava, por preços incrivelmente mais baratos que na capital do império...

Aqui fica então, com a devida vénia ao autor, o assaz interessante texto de António Nobre Leite (residente em Brockton, Massachusetts), elucidativo e fixador de memórias de um tempo definitivamente perdido.

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[0144] O bispo do Mindelo, D. Ildo Fortes, escreve a sua primeira Carta Pastoral (ver posts 143 e 145)

in jornal "Terra Nova", de Outubro de 2011.

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[0143] O blogue PRAIA DE BOTE no jornal TERRA NOVA de S. Vicente

Por simpatiquíssima intercessão do nosso colaborador Adriano Miranda Lima, o jornal TERRA NOVA, "órgão cristão de formação e informação de Cabo Verde", propriedade dos Irmãos Capuchinhos e superiormente dirigido pelo nosso amigo Frei António Fidalgo Barros, publicou uma nota propagandística de quase página inteira sobre o PRAIA DE BOTE. Trata-se de algo que o PB agradece penhorado (ao Adriano e ao "Terra Nova"), tanto mais que recebe sempre o agradável jornalinho, onde de onde em onde já tem colaborado e no qual continuará a participar com muito gosto, sempre que possível. 

Tem o número de Outubro do TN vários motivos de interesse, de que hoje aqui reproduzimos dois: a primeira carta pastoral de D. Ildo Fortes, novo bispo do Mindelo e saboroso texto de António Nobre Leite, de Brockton (Massachusetts), à medida dos interesses do PB, isto é, com coisas do Porto Grande, do mar, de navios, de shipchandlers e etc. e tal. Belo texto, com efeito, que regista um passado cheio de aventura e emoção da nossa ilha, S. Vicente. Ver nos posts 144 e 145.

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sábado, 5 de novembro de 2011

[0142] Palavras para quê? É um blogue da Praia de Bote, 15.000 vezes clicado

[0141] Carris, comboios, vagonetas e por aí fora, pouca-terra, pouca-terra...

A notícia é de Janeiro de 1956, mas refere-se a tempos muito anteriores, 121 anos atrás. Coisa de Sal e de salinas, obviamente. Mas a nossa ilha também teve linhas ferroviárias, ali bem perto da Praia de Bote. Não só a que o PRIA DE BOTE divulga em duas imagens, instalada no Cais da Alfândega, mas outras de que há felizmente boas fotos (no arquivo Djô Martins, por exemplo), propriedade das companhias carvoeiras também nossas vizinhas.


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terça-feira, 1 de novembro de 2011

[0140] - Um café cabo-verdiano nos EUA, onde era possível ouvir mornas e se bebia bem, em Setembro de 1944

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1944. Mornas, cantadas e acompanhadas por bons instrumentistas e ainda por cima tudo adoçado com "bebidas de primeira qualidade", era no "Gold Key Cafe" de Leo (Leão) Lopes, em Pawtucket, Rhode Island, EUA. A "lei seca" acabara onze anos antes. Não fora a guerra em que o país estava envolvido e seria o paraíso quase total. A coisa que este anúncio celebrava era o "Labor Day", comemorado nos States na primeira segunda-feira de Setembro. Não confundir com o "1st of May" ou "May Day". Em dia de feriado, ouvir umas mornas e beber uns whiskies, nada mau, heim? Enfim, de facto, como diz o texto, que melhor maneira de matar saudades de Cabo Verde poderia haver?