domingo, 30 de setembro de 2012

[0257] CONTINUAÇÃO DO TRABALHO DE ADRIANO MIRANDA LIMA SOBRE AS TROPAS EXPEDICIONÁRIAS EM CABO VERDE, NOS ANOS 40 DO SÉCULO XX

PRAIA DE BOTE chama a atenção dos leitores para o excepcional interesse histórico do conjunto de textos que teve início do post anterior. O que Adriano Miranda Lima aqui relata, fruto de situação privilegiada junto de antigos expedicionários, dificilmente poderá ser obtido noutro local. Ao amigo e colaborador, PB agradece a oferta que muito honra o blogue.


TROPAS EXPEDICIONÁRIAS PORTUGUESAS A CABO VERDE NO PERÍODO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
 

2 - Totalidade de forças mobilizadas

Adriano Miranda Lima
No post anterior, fizemos uma introdução a este tema, explicando as razões que levaram Portugal a guarnecer com elevados efectivos militares as suas ilhas atlânticas.

Vejamos agora alguns dados constantes da História do Exército Português (1910-1945), obra organizada sob a coordenação do general Arménio Nuno Ramires Oliveira, oficial que, por coincidência, serviu no comando militar de S. Vicente como capitão e major.

A organização militar, que devia ser estabelecida de acordo com o Decreto nº 29686, de 14 de Julho de 1939, acabaria por não ser efectivada em Cabo Verde. Assim, teve-se de recorrer ao envio de forças expedicionárias da metrópole para a sua defesa.

A ocupação das ilhas e a organização das forças foram sofrendo as adaptações que os efectivos iam permitindo. Uma das condicionantes foi a carência de material, em especial de artilharia. Mas em Julho de 1941 encontravam-se prontos a embarcar em Inglaterra com destino a Cabo Verde, 3 peças de artilharia 4,7", 3 jogos para plataformas e 450 munições. (este material diz respeito à artilharia de costa). As autoridades inglesas ofereceram ainda pessoal para instruir e montar estas peças.

Em 1941, foi criada na cidade do Mindelo, em S. Vicente, uma Bateria de Artilharia de Costa.

Em fins de Agosto de 1941, era transferida a título provisório, da cidade da Praia, em Santiago, para a cidade do Mindelo, em S. Vicente, a sede da Repartição Militar.

A evolução da guerra mostrou a urgência de criar um dispositivo defensivo na ilha de S. Vicente, pelo que foi ordenada a mobilização das seguintes forças:

Para a Ilha de S. Vicente:

- Comando Militar de Cabo Verde, sendo comandante o brigadeiro Augusto Martins Nogueira Soares, desde Agosto de 1941 até Dezembro de 1944;
- Comando do Regimento de Infantaria 23, integrando os batalhões seguintes;
- 1.º Batalhão expedicionário do Regimento de Infantaria 5 (Caldas da Rainha);
- 1.º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria 7 (Leiria);
- 1.º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria 15 (Tomar);
- Bataria de Artilharia de Costa 1;
- Bataria de Artilharia de Costa 2;
- Bataria de Artilharia Contra Aeronaves 9,4 cm;
- Bataria de Artilharia Contra Aeronaves 4 cm;
- Bataria de Referenciação;
- 2.ª Companhia de Sapadores Mineiros do Regimento de Engenharia 2;
    Apoiavam estas unidades as formações dos serviços militares seguintes:
- Parque de Engenharia;
- Tribunal Militar;
- Hospital Militar Principal de Cabo Verde;
- Depósito de Subsistência e Material;
- Laboratório de Análise de Águas;
- Depósito Sanitário;
- Secção de Padaria.

O conceito de defesa da ilha de S. Vicente consistia essencialmente numa sólida ocupação e, em caso de emergência, manter a posse a todo o custo das regiões de João Ribeiro e de Morro Branco e a cidade do Mindelo. Para tal, 2 batalhões ocupavam posições de defesa e 1 batalhão, reduzido, encontrava-se em posição de reserva.

O paquete "Colonial" fundeado no Porto Grande. O navio foi um dos que transportaram as forças expedicionárias - Foto fornecida por Luís Graça, filho de um expedicionário do BI 5
Esta imagem parece representar militares a serem transportados numa lancha entre o navio fundeado ao largo e o cais. Naquele tempo não havia cais acostável e do navio para o cais o transbordo era normalmente de bote ou “gasolina”, mas para grandes efectivos militares a opção teria de ser por um meio de maior dimensão como é uma lancha. No caso, seriam lanchas de carga e não lanchas militares de desembarque de forças para operações de lançamento de testa de praia - Foto fornecida por Luís Graça

Para a ilha do Sal:

- 1.º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria 2:
- 1.º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria 11;
- 3.ª Bataria de Artilharia Contra Aeronaves.

O Hospital Militar do Sal apoiava essas unidades.

O conceito de defesa da ilha do Sal, embora previsse a defesa das costas contra acções provenientes do mar, tinha como principal finalidade a defesa do aeródromo e a sua posse a todo o custo.

Na ilha de Santo Antão, a guarnição era constituída por forças destacadas da ilha de S. Vicente, normalmente uma companhia de atiradores reforçada do batalhão em reserva. Tinha por missão ocupar a povoação de Porto Novo, mantendo a posse da água de abastecimento e a vigilância do canal, em especial na zona correspondente ao Porto Grande de S. Vicente.

Na ilha de Santiago, na cidade da Praia, estava uma companhia de caçadores de praças de recrutamento local/regional, podendo eventualmente ser reforçada com meios atribuídos pelo Comando Militar de Cabo Verde, sediado em S. Vicente. Competia-lhe a defesa da cidade da Praia, como capital de Cabo Verde.

Com o fim da guerra mundial, regressaram à metrópole os efectivos expedicionários. O regresso efectuou-se progressivamente, sendo extintas as unidades, comandos e serviços ali criados. O regresso do Comandante Militar, brigadeiro Nogueira Soares, em Janeiro de 1945, e sobretudo a extinção do Comando Militar criado para o efeito, em 30 de Novembro de 1946, marcaram o final do reforço militar de Cabo Verde, embora várias comissões liquidatárias se tenham mantido pelo tempo necessário à conclusão das suas tarefas.

Continua…

Tomar, 26 de Setembro de 2012
Adriano Miranda Lima

sábado, 29 de setembro de 2012

[0256] NOVO TEXTO DE ADRIANO MIRANDA LIMA, PRIMEIRO DE UMA SÉRIE

TROPAS EXPEDICIONÁRIAS PORTUGUESAS A CABO VERDE NO PERÍODO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

1 - Introdução

Adriano Miranda Lima
O blogue “Praia de Bote”, conforme o seu estatuto editorial, tem sido difusor de notícias e memorial de factos e acontecimentos que têm a ver com o lugar castiço a que foi buscar o nome, mas não se coibindo de irradiar o seu mantra para a cidade do Mindelo ou a ilha como um todo. Daí o reivindicar, com inteira razão, a sua condição de coração do Mindelo.

E em que medida interessa o assunto em título, perguntará o leitor. Com razão se pergunta, e eu explico. É que as Tropas Expedicionárias que no período da II Guerra Mundial encheram o Mindelo foram grandes protagonistas da história da ilha naquele preciso contexto, e de uma forma tão mutuamente partilhada que na memória das populações e na dos próprios militares ficaram para sempre impregnadas as mais gratas recordações. Neste e em alguns posts subsequentes falarei do envolvimento dos militares com as gentes locais e de acções de tocante solidariedade humana numa altura em que a fome ceifava vidas nas nossas ilhas porque as carências eram gritantes.

Se isto não é história, pergunto então o que é ela.

Mas não sou propriamente parte inocente em tudo o que vou contar. Há duas circunstâncias que me impelem a abordar este tema. Uma, é o facto de eu residir em Tomar, a minha segunda terra, onde viviam até há alguns anos atrás muitos ex-militares (soldados, cabos e furriéis milicianos, principalmente) que integraram as forças expedicionárias e que regularmente promoviam convívios para recordar aqueles tempos da sua mocidade. Se ainda sobrevivem alguns, serão já em número escassíssimo, e muito debilitados fisicamente, pois a lei da vida pesa mais que a vontade. A outra circunstância prende-se com o facto de ter sido o regimento da minha vida, o RI 15 de Tomar, uma das unidades-mãe de forças militares integrantes daquela missão nas ilhas atlânticas, tal como o viria a ser mais tarde, e em grande escala e diferente circunstância, quando rebentou a guerra colonial em 1961. Ora, acontece que não só ajudei a reescrever a história do meu Regimento há uns 30 anos como dei particular destaque ao episódio do Batalhão de Infantaria 15 expedicionário a Cabo Verde. Por outro lado, também como oficial do Regimento, fui, em 1984, designado como elemento de ligação com as comissões de convívio dos antigos militares expedicionários, em tudo o que lhes pudesse ser fornecido de memória documental, de apoio logístico e de solidariedade afectiva. Na altura, era eu major e o meu comandante de regimento, sabendo que sou cabo-verdiano de origem, entendeu que dava o tiro na mouche ao nomear-me para aquele encargo. E não me fiz rogado porque as circunstâncias se conjugavam, de facto, para eu satisfazer um anseio do coração e partilhar a emoção de reviver um episódio da história através do testemunho oral daqueles veteranos.

Mas vamos a um breve registo histórico:

Como é sabido, Portugal não teve qualquer envolvimento na Segunda Guerra Mundial, tendo optado por uma posição de neutralidade que se manteve durante todo o conflito. No entanto, sabedor da importância estratégica das suas ilhas atlânticas, designadamente, os arquipélagos dos Açores, da Madeira e de Cabo Verde, alvos apetecidos por qualquer dos contendores, Portugal entendeu que seria curial guarnecer aqueles territórios com forças militares suficientes para dissuadir qualquer veleidade por parte dos beligerantes. O conflito desenrolava-se intensamente no oceano Atlântico, palco de batalhas navais, de afundamento de navios mercantes e de perda de vidas humanas.

Cena de actividade naval no Atlântico - Foto Internet
Cena de combate terrestre na Europa - Foto Internet
O conflito assumira uma dimensão considerável no Atlântico e aqueles arquipélagos eram, com efeito, detentores de elevado potencial estratégico, sobretudo do ponto de vista aeronaval. Uma fraca presença militar de forças nacionais poderia indiciar um sintoma de desleixo, susceptível de encorajar uma ocupação estrangeira à revelia do direito internacional, em manifesto atropelo da soberania portuguesa.

Lisboa. Apoio à neutralidade portuguesa na II G. M. - Foto Internet
Foi assim que o Governo determinou o envio de forças expedicionárias para aquelas ilhas. Essas forças atingiram, em ambos os territórios, efectivos muito elevados de forças militares das diferentes armas e serviços do Exército: infantaria (a mais numerosa, e por isso conhecida como a rainha das armas), artilharia, engenharia e serviços.

Continua…

Tomar, 25 de Setembro de 2012
Adriano Miranda Lima

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

[0255] NUNO REBOCHO LANÇA NOVO LIVRO

CONVITE

Foto Liberal
A 6 de Outubro, pelas 18h00, é lançado em Lisboa o novo livro de Nuno Rebocho, "Canções Peripatéticas" (Edições Apenas).

A obra será apresentado por Fernanda Frazão (da editora Apenas) e pelo jornalista Mário Galego, que representará o autor, ausente em Cabo Verde. Os poemas serão ditos pelo poeta e diseur Jorge Castro.

Escritor, poeta, jornalista, Nuno Rebocho chefiou, durante anos, a Informação da RDP-Antena 2. Foi animador cultural, aprendiz de político e de sindicalismo, entre outros vícios, chateou-se com a terra que, por mal dos seus pecados, o viu nascer e retomou as suas raízes africanas. Escolheu Cabo Verde para viver e trabalhar (Câmara Municipal de Ribeira Grande), onde também vai escrevendo. Reivindica uma nacionalidade: a lusofonia.

20h00 - Jantar cabo-verdiano, sujeito a inscrição prévia, por telefone.
Centro InterculturaCidade
Travessa do Convento de Jesus, 16 A - 1200-126 Lisboa
Marcações para os jantares (cabo-verdianos, como convém):
centro.interculturacidade@gmail.com  |  21 397 45 24  |  96  239  5 1 11
Lotação limitada. É necessário efectuar marcação  até  dia  5/09/12


Em princípio, o PRAIA DE BOTE estará presente, para comprar o livro, ouvir excertos do mesmo e fazer a reportagem fotográfica que se impõe.

[0254] BONS NOTÍCIA, FRISQUIM, DE NÔS TERRA, SONCENTE!!!



[0253] O FALHADO CONCURSO 12 E A SUA SOLUÇÃO



Pela segunda vez, o concurso do PRAIA DE BOTE não teve vencedor. Reconhecemos que a resposta não era muito fácil, pela razão de que é costume dar nomes novos ou manter os antigos em edifícios, ruas e praças que adquiriram outros - o que destrambelha tudo.... Por exemplo, o velho Terreiro do Paço lisboeta quase nunca é chamado de Praça do Comércio, designação inventada pelo marquês de Pombal em reconhecimento da benemérita acção dos comerciantes da capital por altura da reconstrução pós-terramoto de 1755. O Paço Real soçobrou mas o nome da praça mantém-se ainda hoje. A praça do Areeiro, também em Lisboa, cujo nome mudaram para Praça Francisco Sá Carneiro, nunca é referida com este segundo nome. E a Rua de Lisboa do nosso Mindelo é exemplo semelhante que nenhum nome de cristão ou mouro será capaz de destronar (e já lhe aplicaram vários...).

Passemos então a esta escola do nosso concurso falhado... Segundo o Zito, terá sido edificada lá pelos anos 40. Pelo aspecto, queremos acreditar que sim, observando os seus tiques construtivos próprios da época em que se queria dar foro de coisa científica a uma então designada "casa portuguesa": a forma do telhado, o tipo de telha, os telhadinhos sobre as janelas, o alpendre, etc. Curiosamente, surge-nos exteriormente apenas a designação de ESCOLA, ao contrário do nosso bem-amado Liceu Gil Eanes. ESCOLA e pronto! Talvez isso tenha contribuído para este estabelecimento de ensino ser ainda agora lembrado como "Escola Nova" ou "Escola da Praça Nova", neste caso devido à proximidade da mesma. Mas... Há sempre um mas... Acontece que a dita escola tinha nome. Só que este não aparecia na fachada. E se calhar, muito pouca gente o saberia: os professores, talvez alguma contínua, um ou outro encarregado de educação mais atento no acto das matrículas ou na hora de receber diplomas. E aí está como aqui o Djack chegou à solução! É que o rapaz fez lá o exame da 4.ª classe (tal como um anónimo ou anónima que aqui apareceu e no/a qual depositávamos tantas esperanças para o deslindar do intrincado caso). E recebeu diploma com a classificação de "Distinto". Foi então que há dias, ao ver de novo o dito documento, virando-o, redescobriu no verso o carimbo que aqui hoje mostra. Quanto ao preço, o papelinho custou três paus, o que dava na altura para comprar um monte de chuinga e sucrinha... E está assinado por um elemento da família Serradas (talvez uma senhora professora) cujo nome gostaríamos de saber.

E está tudo dito! Bem, tudo, tudo, não... Falta dissecar as ajudas: o "bonito" e o "lindo" era o "Belo". Tratava-se da Escola Central João Belo, em alusão ao nessa altura já falecido comandante João Belo (1878-1928) sobretudo notabilizado através da sua actividade em Moçambique onde esteve em várias missões, quase por três décadas. Quando se dizia que ele "não gostava de donos de gente" isso significava que teve importante acção no ataque à escravatura e aos negreiros que a ela se dedicavam, mesmo depois de a mesma ter sido proibida. Foi apoiante do Estado Novo, nos seus primórdios, tendo falecido cerca de dois anos depois do golpe que lhe deu origem.

Apesar do fiasco do concurso, fica afinal mais uma nota histórica sanvicentina e mindelense daquelas que o PRAIA DE BOTE gosta de fixar no éter da internet. Pois para isso ele serve...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

[0252] BLOGUE "NOVAS DO TARRAFAL", NASCEU HOJE

À semelhança de CIDADE VELHA 1462 que divulga acontecimentos da Ribeira Grande de Santiago, o NOVAS DO TARRAFAL, do mesmo autor de PRAIA DE BOTE. servirá para divulgar ao mundo o que acontece de mais interessante nessa localidade tão ligada por memórias dramáticas a Portugal. Os tempos são hoje outros, de liberdade e democracia, por lá e por cá e o que nos tem enviado o Município do Tarrafal merece divulgação no éter internético. Daí, mais um espaço-projecto cabo-verdiano que pomos em andamento.  

Pode ir para o NdoT clicando ali em cima ou na coluna dos blogues parceiros, ao lado, neste blogue.

Para ilustrar esta post, temos uma antiga notícia descoberta no nosso arquivo. Saída  em "A União Portuguesa", a 21.11.1895, já apontava o desejo de um quartel para o Tarrafal... O pior veio décadas depois...


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

[0251] CONCURSO 12


Após as grandiosas comemorações do 250.º post do PRAIA DE BOTE (2500 foguetes atirados para os céus do Porto Grande e 25 horas de sirenes de navios a tocar na baía), impunha-se um concurso, neste caso o 12.º de série. Para o efeito voltamos à escola cujo escudo já aqui foi exibido à sagacidade dos nossos leitores. Hoje é a própria escola, toda ela, paredes, soalho, telhado, janelas e portas, a entrar em cena.

Pergunta: como se chamava este estabelecimento de ensino?

Ajuda: de facto, era (e ainda é, pois há coisas que nunca mudam) lindo...

Foto Joaquim Saial

domingo, 23 de setembro de 2012

[0250] COMEMORAÇÃO DO QUARTO DE MILHAR

250 POSTS

250 posts. Número certo, como convém, quando se trata de comemoração. Desde 7 de Fevereiro do ano passado, paulatinamente, aqui vimos refazendo memórias de toda a espécie relativas à ilha mais especial das ilhas especiais, S. Vicente, e à cidade mais admirável das cidades admiráveis, Mindelo. Sobretudo pelos genes que em nós ambas conseguiram incutir. Também de outros Cabo Verdes se tem falado nesta PRAIA DE BOTE e assim continuará a ser. Obrigado aos que têm participado activamente e também àqueles que por um motivo ou por outro apenas espreitam e não dizem nada mas ficam registados em estatística assaz confortável.

Ementa de hoje, como não podia deixar de ser, a casa mais fantástica das casas fantásticas: a réplica da Torre de Belém no Mindelo, antiga Capitania dos Portos e minha casa por três anos. Era de esperar...

Um braça pa tude munde,
Djack d'Captania

Torre de Belém, antes do restauro iniciado c. 2002. Vemos os restos da rampa de acesso de gasolinas de pilotos e botes da Mocidade Portuguesa para reparação ou guarda. Nesta altura, na abertura já não se vê o portão de grades de madeira que podemos observar na fotografia seguinte, de 1965 - Foto Reinaldo Rodrigues (ver AQUI)
Novembro.1965. Djack, a mãe, a docente do Gil Eanes D. América Pestana (de Vila Viçosa) e a tia-bisavó do Djack, Conceição. A rampa ainda intacta e o portão de correr, de grades de madeira. A memória do portão foi de certa maneira recuperada com a gradaria metálica colocada no restauro recente - Foto Narciso Silva
Restauro da Torre de Belém do Mindelo - Foto Luís Alves

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

[0249] DR. MANUEL BRITO SEMEDO, NOVO VICE-REITOR DA UNICV

Através do seu colaborador Valdemar Pereira, PRAIA DE BOTE soube que o professor universitário cabo-verdiano (e sobretudo mindelense, parte importante da notícia...) Dr. Manuel Brito Semedo foi muito recentemente nomeado vice-reitor da Universidade de Cabo Verde, cargo de que tomará posse no próximo dia 1 de Outubro.

Autor e administrador de NA ESQUINA DO TEMPO (blogue parceiro do PRAIA DE BOTE), Manuel Brito Semedo é doutorado em Antropologia e possui extensa e valiosa obra publicada (clique AQUI para ver). Ao amigo e colega docente e investigador, o PRAIA DE BOTE e Joaquim Saial enviam sinceros parabéns e desejam-lhe as maiores felicidades na árdua tarefa que se avizinha.

Manuel Brito Semedo (à direita, na imagem), em 2010, no dia em que foi agraciado pelo Presidente da República de Cabo Verde, Pedro Pires, com a Medalha do Vulcão (1.ª classe), ao lado do poeta Arménio Vieira - Foto Maria Catela

terça-feira, 18 de setembro de 2012

[0248] CABO VERDE MUSIC AWARDS 2013

 PUBLICIDADE GRATUITA 

III Gala dos Cabo Verde Music Awards é no dia 9 de Março de 2013

A próxima edição dos Cabo Verde Music Awards já está marcada e acontecerá no dia 9 de Março de 2013, em local ainda a definir.

Será a terceira edição deste grande evento que já se afirmou como um dos acontecimentos culturais de maior relevo para a música cabo-verdiana.

A Gala de 2013 irá premiar os trabalhos musicais que tenham sido editados ou lançados digitalmente e comercializados entre os dias 1 de Outubro de 2011 e 30 de Setembro de 2012.

A organização está a definir os nomes que irão compor as comissões locais que, à semelhança do ano passado, irão fazer a primeira triagem dos melhores trabalhos por região. Europa do Norte, Europa do Sul e Centro, América e África serão as áreas de actuação de cada uma das comissões.

Cada comissão é composta por três elementos que são personalidades reconhecidas nas áreas de produção ou divulgação musical.

Os resultados dessa primeira triagem serão enviados ao júri principal - responsável pela definição dos critérios de selecção - que em Dezembro indicará os nomeados para cada categoria.

Recordamos que os Cabo Verde Music Awards são um evento propriedade da GMS Entertainment que tem como responsabilidade a produção e execução da Gala Anual.

Cabe, no entanto, a um júri totalmente independente da organização, a escolha dos nomeados e vencedores por cada categoria.

Conforme o estipulado em regulamento nenhum jurado poderá manter-se nessas funções mais do que dois anos consecutivos.

domingo, 16 de setembro de 2012

[0247] LIVRO "CABO VERDE TERRA DE MORABEZA - Uma viagem através da sua história e cultura" lançado hoje na Costa de Caparica, Almada, Portugal

Após o seu lançamento no "Cesária Restaurant", em Boston, EUA (9.Setembro), e em Lisboa, na Associação Cabo-Verdiana (14.Setembro) e no Auditório do Alto dos Moinhos (15.Setembro), foi hoje a vez de este livro ser divulgado no bar "Espaço 20", na Costa de Caparica, Almada, Portugal.

Em ambiente descontraído e com uma assistência simpática e atenta, Luís António Faria (Tó Faria) e Suzana Abreu deram não só a conhecer alguns interessantes aspectos do conteúdo desta obra como da história e cultura de Cabo Verde.

O livro teve ainda apresentação entusiástica e emocionada da professora portuguesa Cristina Loureiro dos Santos, amiga de ambos e antiga "mnina de Soncente", pois ali esteve a residir alguns anos com seu pai o hoje muito conhecido comentador e escritor de assuntos militares general Loureiro dos Santos. A apresentadora frequentou o Liceu Gil Eanes nas suas novas instalações, inauguradas nos finais dos anos 60.

Cristina Loureiro dos Santos, no uso da palavra, e os autores à sua esquerda

Os autores, um guineense que viveu grande parte da infância e a adolescência em S. Vicente (entre 1960 e 1974) e que há vários anos reside nos EUA e uma tradutora portuguesa que passou por S. Vicente por via de deslocação profissional da família, resolveram juntar esforços no sentido de darem à estampa este repositório da história e cultura cabo-verdianas que tem a particularidade de ser bilingue, sobretudo em atenção à comunidade cabo-verdiana de várias gerações residente nos EUA.

Aspecto do público

Resta ainda fazer o lançamento da obra na Praia (Biblioteca Nacional, no próximo dia 18, e no Instituto Piaget, a 21) e em East Providence (EUA), no "Riviera Restaurant", a 30.

Suzana Abreu e Tó Faria

O PRAIA DE BOTE esteve na cerimónia e fez a presente reportagem fotográfica, salientando entre os presentes a figura de Fernando Frusoni (filho do poeta Sérgio Frusoni) e da esposa, Haydée Ferro (filha do querido e sempre saudoso amigo e armador Henrique "Firrim" Ferro) que dentro de dias teremos o enorme prazer de receber na praia mais cabo-verdiana de Portugal.

Outro aspecto do público

Fernando Frusoni, durante a sessão de autógrafos

Tó Faria, à conversa com Fernando Frusoni, falando do pai deste, o poeta Sérgio Frusoni

[0246] AINDA A QUESTÃO DO CRIOULO X LÍNGUA PORTUGUESA

A IMPORTÂNCIA DA LÍNGUA NOS DESAFIOS DO MUNDO GLOBAL - a regionalização e o debate sobre o crioulo (3.ª Parte)

José Fortes Lopes


Romancista e poeta Almeida Garrett (Portugal)
Como vimos no artigo anterior (2.ª parte), parece haver um propósito, mais ou menos disfarçado, de eliminar o bilinguismo em Cabo Verde erradicando paulatinamente dos nossos hábitos a língua portuguesa, que herdámos e com a qual convivemos durante quinhentos anos, substituindo-a por um crioulo oficial e padronizado em função do dialecto santiaguense e da assimilação progressiva dos outros crioulos, condenados assim ao desaparecimento.

É provável que seja o inconsciente colectivo a aconselhar o refúgio no crioulo, pela constatação de que a maioria dos cabo-verdianos, inclusivamente as elites, demonstra notória dificuldade em se exprimir correntemente em português. Mas se tivermos em conta que antigamente o cenário linguístico era bem melhor, correspondente a uma situação de bilinguismo em que, todavia, o crioulo era largamente dominante, só se pode concluir que a causa principal da presente situação é a falência do sistema de ensino. Pretender-se, com uma reforma arrevesada, mascarar a resolução de um problema eminentemente técnico, é como tapar o sol com a peneira. Porém, o problema do domínio do português em Cabo Verde perseguirá eternamente os cabo-verdianos se ele não for atacado de raiz e resolvido definitivamente. Estou certo de que se a língua portuguesa for expulsa pela porta, ela retornará sub-repticiamente pelas janelas. Os especialistas linguísticos deveriam, por conseguinte, antes do salto no escuro, debruçar-se com muita seriedade e rigor sobre o problema do português em Cabo Verde, apresentando pistas e soluções para a sua resolução. A questão que se coloca e levanta dúvidas aos cépticos da metodologia seguida no processo da oficialização do crioulo, é se esta será mesmo uma solução, como apontam e advogam os “especialistas”, nos quais se incluem os chamados Fundamentalistas. Ou seja, a questão é saber se o mais conveniente é mesmo o retorno umbilical ao crioulo, como poção mágica para os problemas linguísticos bicudos de Cabo Verde, a contento dos que vêem a língua materna como o regaço para o sossego da sua inquietação identitária. Esta é uma dúvida fundamental.

O(s) crioulo(s) de Cabo Verde conviveram naturalmente, ao longo dos quinhentos anos, com a língua portuguesa, de tal maneira que os laços umbilicais e o permanente vaivém entre as duas línguas foram e são a única e verdadeira fonte de enriquecimento do crioulo. A prova disso é o facto de mais de 90% do léxico de todos os crioulos cabo-verdianos terem origem portuguesa. Nunca o crioulo, nem mesmo durante os momentos mais altos da perseguição salazarista, esteve realmente ameaçado, pois, ao mesmo tempo que se alimenta do português, está fortemente enraizado nas diversas ilhas, com os seus diferentes cambiantes. Portanto, independentemente da questão da oficialização do crioulo, aproveitar a oportunidade para eliminar a língua portuguesa da convivência dos crioulos é tirar a estes o húmus onde crescem e florescem, é privá-los do único substrato linguístico capaz de lhes fornecer uma futura gramática e um léxico minimamente credíveis. Por conseguinte, é falso o argumento da necessidade da instauração imediata do monolinguismo em Cabo Verde para proteger o crioulo. A língua portuguesa é e será um elemento de referência estruturante e o tronco de onde emana a seiva vivificante do crioulo. Daí que seja essencial voltar a ensinar bem o português, investir fortemente nesta língua para que qualquer cidadão possa falá-la correcta e correntemente, assim como o faz o brasileiro, o angolano o moçambicano ou o santomense, que não parecem querer prescindir da herança linguística que receberam e é ponte disponível para ligação com o mundo. Fechar-se no crioulo e romper com a língua portuguesa só pode conduzir à atrofia do crioulo: o protecionismo nunca deu bons resultados. Infelizmente, muitos teóricos que advogam esta tese parecem convencidos de que o crioulo foi gerado espontaneamente, através de uma auto-criação, devendo portanto ser preservado numa espécie de éter.

Na verdade, quem pode provar e garantir que a maioria dos cabo-verdianos, depois de uma atabalhoada e pretensa reforma/revolução, conseguirá exprimir-se integralmente em crioulo, como língua estruturada gramaticalmente e propiciadora de um raciocínio e discurso formal, coerente e abstracto, com vantagem em relação ao português? Como disponibilizar todo um acervo livresco, documental e bibliotecário convertido subitamente num suposto crioulo erudito e à altura das múltiplas exigências da literatura, da filosofia e das ciências? Será que de repente vai haver literatura abundante e generalizada em crioulo? Quem vai fazer todo este trabalho e com que meios e dinheiros? Que aliciantes verdadeiros levarão os cabo-verdianos a ganhar hábitos de leitura e escrita em língua restringida aos seus estreitos horizontes? Como correr o risco de lançar Cabo Verde numa experimentação linguística na ausência de respostas às inquietações acima referidas? Tenho, e como eu muitas pessoas, sérias dúvidas sobre esta matéria e assiste-nos todo o direito de as expor. Limitando-se até hoje à pura retórica política, nenhum “especialista”, nem o governo, nem os acérrimos defensores daquilo que chamam a oficialização do crioulo, até hoje responderam a qualquer das dúvidas aqui colocadas e a outras mais.

Num país onde o fosso entre os ricos e os pobres aumenta de dia para dia, há uma elite a viver desafogadamente, pelo que a supressão oficial da língua portuguesa em nada a afectará, pois que continuará a cultivar-se com o acesso à literatura e aos meios multi-media sofisticados expressos naquele idioma e em outros, imediatamente disponíveis em casa ou via internet, enquanto o seu poder de compra lhe faculta ainda estágios e turismos linguísticos e a possibilidade de ver os seus filhos prosseguirem formações universitárias em vários países e em várias línguas estrangeiras. Portanto, uma sociedade dual e a duas velocidade estará em gestação, uma que domina o português e/ou línguas estrangeiras, e uma outra “indigenada”, confinada ao horizonte do crioulo, já que nem ao português terá acesso. Este é o cenário muito provável que a nova elite dominante oferece a um país que não pode dar-se ao luxo de experimentalismos e devaneios sem sentido. 

Escritor Henrique Teixeira de Sousa (CV)
A falácia da migração total para o crioulo fica ainda mais desmontada quando se verifica que as elites que dominam o português, ao exprimirem-se actualmente em crioulo, mais de 90 % dos termos são plagiados directamente do português erudito e artificialmente crioulizados, denunciando assim uma total impossibilidade de se abdicar da língua portuguesa. Para mais, não deixa de ser preocupante esta flagrante miopia estratégica que é rejeitar a língua portuguesa em Cabo Verde num momento em que se assiste à ascensão vertiginosa do Brasil como país emergente na economia global, depois de há muito se ter afirmado como a primeira potência regional na América do Sul. Só pode honrar e prestigiar a lusofonia ver o Brasil aspirar-se a uma potência global através da sua participação cada vez mais activa na política mundial, desde a sua inclusão no clube dos G-20 às suas pretensões a futuro membro permanente do Conselho de Segurança. Esta perspectiva brilhante para o Brasil eleva a língua portuguesa à condição de língua de trabalho num mundo globalizado, ganhando assim, e inesperadamente, vigor e importância. Não se pode esquecer também as grandes potencialidades económicas de Angola e de Moçambique e a sua crescente influência mundial. É neste contexto que são bem oportunas as seguintes e recentes declarações de duas figuras do mundo lusófono: Xanana Gusmão, ex-Presidente do Timor, ao jornal Correio da Manhã (1): “Temos orgulho em falar português. A Língua Portuguesa é um dos nossos grandes factores de independência e afirmação, neste contexto asiático e com vizinhos tão poderosos. Por isso, pretendemos reforçar o ensino do português”; Pedro Pires ex-Presidente Cabo Verde, ao jornal A Nação (2): “é necessário que exista um esforço da comunidade académica, da sociedade civil e dos governos dos países lusófonos para elevar o estatuto da língua portuguesa no campo da pesquisa. Para além de uma língua de cultura, o português deverá ser uma língua de tecnologia e caberá aos países mais avançados e mais populosos como Brasil, Portugal, Angola e Moçambique trabalharem para fazer da língua portuguesa uma língua de cultura, mas sobretudo uma língua de ciência e tecnologia. As investigações nos mais diversos domínios vão precisar de ser em língua portuguesa. É um esforço que deve ser feito”. É assim que, olhando o problema numa perspectiva global e de longo prazo, querer forçar os cabo-verdianos a numa experimentação aventureira afastando-os do bilinguismo só pode levar a concluir que quem dirige os destinos de Cabo Verde traz o passo desacertado com a realidade e a história.

Cabo Verde, pela exiguidade do seu território e da sua população, pela inexistência de matéria-prima, pela sua débil economia e grande atraso tecnológico, e sobretudo devido à ausência, até hoje, de estratégias adequadas para o desenvolvimento, dificilmente encontrará uma ou várias das aplicações-chave para a passagem de um país totalmente dependente da ajuda internacional para a um país viável, e no melhor dos casos emergente. Uma aplicação-chave é o termo que define o conjunto de estratégias que fizeram o sucesso, outrora, do Ocidente, nomeadamente o mundo protestante impelido pela Revolução Científica, o Iluminismo e o Reformismo, e de que se aproveitam hoje os países ditos emergentes como a China, a Índia, Singapura, o Brasil, etc. É difícil definir as aplicações-chave determinantes para fazer migrar Cabo Verde do estatuto de um país subdesenvolvido para o de um país emergente. Este é o grande problema que tem desafiado os sucessivos governos dos últimos 35 anos. Problema cuja solução constituirá talvez uma utopia, segundo os mais pessimistas.

Mas é bom que os cabo-verdianos o saibam e tirem as devidas ilações desta crise mundial, no sentido de que é necessária uma tomada de consciência da pesada responsabilidade que têm em cima dos seus ombros: terão que ser, efectivamente, os senhores dos seus próprios destinos, com todas as responsabilidades implícitas, assumindo todos os riscos e os proveitos da sua soberania. E isto implica necessariamente serem eles próprios a criar condições para a sustentação da sua economia. Não há lugar para os estados viverem eternamente da ajuda ou caridade internacional: os povos dos países em crise começaram a pensar egoistamente nos seus próprios problemas. Ou se encontra a solução para o desenvolvimento de Cabo Verde ou ele se inviabiliza como estado soberano. Esta é a dura realidade e o dilema que até mesmo estados desenvolvidos vêm já experimentando amargamente, como é o caso da Grécia, o que não deixa de ser um oportuno alerta para Cabo Verde. É também uma realidade para a qual os políticos deveriam sensibilizar o povo, invocando a seguinte máxima de um grande político mundial: “Não perguntes o que a tua pátria pode fazer por ti. Pergunta o que tu podes fazer por ela” (John Kennedy).

Pois a questão que se coloca à economia cabo-verdiana imbrica directamente com a sobrevivência do país, à semelhança de muitos outros países incomparavelmente mais desenvolvidos, neste mundo de hoje que se revelou uma selva globalizada e planetária, que suscita interrogações sobre como se inserir e beneficiar de uma parte deste enorme bolo que é a economia mundial globalizada. Sendo de excluir sectores como agricultura ou indústria pesada, restam os serviços, sector que engloba vários subsectores, os tais nichos de mercado, altamente competitivos envolvendo mão-de-obra altamente especializada, assentes nas novas tecnologias, no saberes e na ciência. Assim, perante a carência de potencialidades mais exploráveis, o turismo, parece ser a área estratégica em que Cabo Verde deve continuar a apostar. Nesse sentido, uma estratégia de sucesso terá que assentar na formação dos jovens no domínio por excelência de línguas estrangeiras (inglês, francês, espanhol, mandarim, língua maioritária na China), expressão oral e escrita fluentes, assim como na elevação do nível cultural e intelectual e no melhor conhecimento do mundo, transformando cada jovem num potencial cidadão do mundo. Nesta perspectiva, o português em vez de relegado para condição de língua estrangeira, deverá, pelo contrário, merecer prioridade no investimento, por todas as razões anteriormente enunciadas e por ser suporte e alavanca imprescindível para a aprendizagem das línguas dominantes no mundo, nomeadamente o inglês: o futuro de Cabo Verde só pode-se construir num bilinguismo assumido politicamente e socialmente, num quadro em que os crioulos das diferentes ilhas viveriam em democracia e harmonia e evoluiriam livremente, sem intromissão política ou administrativa. Não é possível conceber Cabo Verde enclausurado num monolinguismo autoritário, onde imperaria um crioulo eleito. Por isso, condenar os jovens ao fecho umbilical no crioulo é condenar Cabo Verde ao isolamento ou uma espécie de provincianismo, representando uma marcha em sentido inverso ao movimento no mundo, um retrocesso sociológico e uma aventura desastrosa, danosa para qualquer estratégia de desenvolvimento. Para além disso, poderá saldar-se em perdas potenciais de competitividade económica, numa perspectiva de inserção de Cabo Verde no comércio mundial. Como fazer negócios com os outros quando se está limitado comunicacionalmente, não podendo compreender as outras línguas nem exprimir noutra língua senão no crioulo? Estas verdades de La Palisse deveriam nortear a visão das pessoas que dirigem qualquer país hoje, e no caso de Cabo Verde reveste-se de uma importância capital, a exigir bom senso em vez de voluntarismo pacóvio.

É também importante que se perceba que, para além dos custos invisíveis e imateriais da implementação actual do crioulo que vêm sendo apontados, acrescem custos reais e aí ninguém talvez tenha feito as contas ou imaginado que elas se terão de fazer com rigor inadiável e imprescindível. Há um conjunto de implicações sérias que não podem deixar de ser colocadas no tratamento de uma questão em que só o máximo rigor, cuidado e seriedade devem pautar a conduta dos responsáveis políticos, não podendo haver amadorismo nem entusiasmos nacionalistas em matéria tão extremamente sensível como uma reforma/revolução linguística. Assim, deve-se de se perguntar quem vai pagar a monumental factura, que se prolongará pelo tempo fora, da erradicação da língua portuguesa e da conversão integral da vida do país num determinado crioulo oficial, a solução pelos vistos minimalista escolhida pelo regime. Toda a literatura e publicação disponíveis em português ou noutras línguas serão convertidas no crioulo? No final, será Portugal, a ex-potência colonial, que pagará ou ajudará a pagar o programa revolucionário de erradicação da língua portuguesa de Cabo Verde? Ou serão os outros, os parceiros, países amigos doadores, como por exemplo os EUA ou a China, a pagar os custos do aventureirismo? Ao excluir-se voluntariamente da lusofonia com a adopção do monolinguismo crioulo, Cabo Verde deixará de falar oficialmente o português, isolando-se da comunidade lusófona e ficando numa situação similar à da Guiné Equatorial, como país observador?

As questões que precedem ainda não estão respondidas, mas em matéria de língua ou outros encargos de soberania, é irrealista, para não dizer patético, imaginar que a cooperação internacional ou algum país mecenas possam sempre assegurar as despesas de outrem que não se prendam com gritantes prioridades de desenvolvimento ou assistência humanitária. Sem querer ser adivinho da consciência alheia, a resposta que vier só poderá ser esta: “Quem quer luxo que o pague!”

Espera-se que no debate sobre a relação língua portuguesa/Crioulo, Onésimo Silveira, um patriota no verdadeiro sentido da palavra, detentor de enorme prestígio intelectual, com experiência internacional e uma vivência cosmopolita, um dominador exímio do português e de línguas estrangeiras, continue a usar todo o seu capital de prestígio e uma pedagogia de bom senso para colocar as autoridades perante as suas responsabilidades. As tomadas de posição corajosas têm contribuído ao desbloqueio de debate sobre a Regionalização em Cabo Verde. Espera-se que não seja levado por um discurso politicamente correcto, consensual, mas que assuma as suas responsabilidades na defesa e preservação da herança cultural de Cabo Verde, ameaçada por tendências fundamentalistas, esconjurando estas três grandes ameaças: a eliminação dos crioulos maternos das ilhas periféricas à ilha capital; a erradicação do português em Cabo Verde; a eleição de um crioulo padrão artificialmente clonado e baseado no da ilha de Santiago. É preciso que outros cabo-verdianos, residentes e na diáspora, que possam opinar e reflectir sobre a problemática da língua, na multiplicidade das suas envolventes (culturais, sociais, políticas, económicas e internacionais), acordem e façam ouvir a sua voz, no sentido de contrariar soluções ditadas por impulsos primários e voluntaristas que só podem ter consequências irreversíveis e nefastas sobre o futuro de Cabo Verde. Que o Senhor Presidente da República, professor universitário e homem de cultura, sensível às questões regionais do país, zelador dos interesses estratégicos de Cabo Verde no mundo, jogue um papel de moderador junto das partes envolvidas no processo de oficialização do crioulo. 

A suspensão imediata de todo o processo de oficialização do crioulo para uma posterior reflexão, pelo menos no quadro de um verdadeiro debate sobre a Regionalização, deve ser uma exigência, um imperativo nacional.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

[0245] MAIS UM ARTIGO DE JOSÉ FORTES LOPES

A SITUAÇÃO E O ESTATUTO DA LÍNGUA PORTUGUESA EM CABO VERDE: a regionalização e o debate sobre o crioulo (2.ª parte)

José Fortes Lopes

Luís de Camões
Na primeira parte deste artigo, dissertei sobre a alienação e a dúvida generalizada que rodeiam o processo anti-democrático (no sentido abrangente, ou seja, associando os principais interessados, as ilhas e os seus falantes) que subjaz à oficialização do crioulo, onde são omitidas as suas sérias implicações na vida do país. Tudo decorrendo no segredo dos deuses, na ausência de diálogo com a sociedade, parece evidente o propósito de silenciar os cabo-verdianos e perpetrar, custe o que custar, uma reforma/revolução mental em Cabo Verde, a pedido de ninguém, mas como reflexo do ego dos seus promotores e apoiantes políticos e associados, sob os auspícios de um desígnio em que não se revê, como se tem visto, a maioria esmagadora do país.

Mostrei que é um direito inquestionável e inalienável o de os habitantes de cada ilha exprimirem-se no seu crioulo materno, que negar este facto poderá conduzir a uma situação de consequências imprevisíveis e sempre perigosas, configurando um acto de violência cometido pelo Estado a unificação dos crioulos por via legislativa e através de “engenharia linguística” e a escolha do crioulo padrão por motivos meramente políticos ou eleitoralistas. Em suma, esta aventura, a concretizar-se no seu pleno, seria a “facies” reveladora de uma política abusiva e autoritária de matriz claramente centralizadora. Tendo em conta estas premissas, julgo que é legítimo que o Estado de Cabo Verde reconheça a diversidade linguística do país e acate as reivindicações dos seus habitantes, perante uma realidade inquestionável: a existência de crioulos de Cabo Verde e o carácter regional do país.

Poeta José Luís Tavares (CV)
Daí que a Regionalização seja o ponto de partida e de chegada deste complexo processo. As eventuais negociações, a decorrerem no âmbito da regionalização, deverão consagrar aquele acervo de direitos em matéria linguística, um requisito que deverá ficar plasmado na futura e revista Constituição de Cabo Verde. Também referi os perigos de lançar Cabo Verde na aventura de uma precipitada adopção do uso do crioulo como futura ferramenta de trabalho e do simultâneo desincentivo do uso corrente do Português no país. Existem riscos de ordem diversa que os poderes políticos, e designadamente quem pensa e decide neste país, deveriam ponderar antes de decidirem em matéria tão delicada e fulcral para o futuro do país e para a harmonia e o bem-estar psicológico do nosso povo.

Com efeito, bem mais perigoso é ainda o risco de uma alienação ou de um cada vez maior afastamento de Cabo Verde da língua portuguesa. Como anotei, num país já por si mal falante desta língua, o mesmo equivaleria a votar a maioria da população a uma situação real de “indigenato”, com pessoas incapazes de se exprimirem correctamente em nenhuma língua, ao passo que as elites minoritárias continuarão cada vez mais a ter acesso e contacto constante com o Português, a única língua estruturada e com uma riqueza léxica suficiente (pelo menos na presente conjuntura linguística), capaz de proporcionar actualmente produção intelectual, literária, científica e um pensamento abstracto estruturado, para além de permitir e facilitar a ponte para as línguas dominantes como o francês, o inglês ou o espanhol. Por motivos diversos, induziu-se na sociedade a sensação, se não o medo, de que usar o português como língua corrente seria como cometer um crime de lesa-língua e lesa-pátria. Na questão do português é importante denunciar o enorme logro em que os cabo-verdianos podem cair, mercê de desinformação ou de uma pedagogia baseada num nacionalismo bacoco, uma vez que não passa pela cabeça de ninguém ser contra a dignificação do crioulo ou negar o seu lugar na matriz identitária das nossas ilhas. Mas quem poderia ser contra os crioulos falados no arquipélago de Cabo Verde? Haverá inimigos do crioulo ou de Cabo Verde, como pretendem os Fundamentalistas? Esta visão maniqueísta de um mundo dividido entre bons e maus não é boa para um debate que se quer sereno.

Poeta Jorge Barbosa (CV)
É neste contexto do debate sobre o crioulo que em Novembro de 2011 o Primeiro-Ministro (PM) de Cabo Verde, José Maria Neves, “fez história”, ao proferir um discurso perante a 66ª plenária da Assembleia Geral das Nações Unidas, na sua “língua materna”, ou seja, no seu “crioulo materno”. Os ditos Fundamentalistas só podem ter-se regozijado com esse gesto na medida em que poderão ter visto nele um sinal positivo para a realização definitiva dos anseios: a oficialização do “crioulo”  e o fim aparente do domínio do português como língua de expressão oficial em Cabo Verde. Esse acontecimento é para eles, sem dúvida, um “marco histórico”. Todavia, não deixou, certamente, de constituir uma forte mensagem política “urbi et orbi” para destinatários bem definidos: a comunidade lusófona e “certos crioulos” (como se diz em crioulo de S. Vicente, “quêls que sons”). Estaria o PM com esse discurso a anunciar o nascimento de um “novo” Cabo Verde, o seu, na  refundação linguística da sua  visão fundamentalista?; terá ele discursado no dito crioulo oficial ou numa variante do crioulo?  Ou será que o discurso não passou de “fogo de vista ”, de um acto de pura propaganda para “crioulo ver”, ou mesmo um recado para dentro do seu país? Estas perguntas são legítimas para os cabo-verdianos e merecem esclarecimentos. Como ninguém sabe ou percebe em que consiste e para que serve a oficialização do crioulo, desconhecendo-se o que está a passar-se nos bastidores deste processo, a dúvida paira no ar. Mas não deixa de ser intrigante que num preciso momento em que se fala do reforço da língua portuguesa no mundo, nomeadamente na área diplomática, o PM apareça com semelhante tirada pouco diplomática. Este discurso deverá ter apanhado de surpresa os diplomatas da lusofonia presentes nas Nações Unidas, mas também poderá ter sido visto como simples exibicionismo pacóvio não merecedor de atenção.

Escritor Baltasar Lopes (CV)
É que é no mínimo estranho e contraditório que Cabo Verde se pretenda disponível para iniciativas globais ou ofensivas diplomáticas de rosto lusófono e transmita num fórum internacional como a Assembleia das Nações Unidas um sinal de ruptura ou demarcação face ao elemento fundamental agregador do espaço lusófono: a língua portuguesa. Pois a questão que se coloca é se a comunidade lusófona, de que pretende Cabo Verde fazer parte, terá levado a sério a atitude do chefe do governo cabo-verdiano, quando se sabe, a acreditar nas notícias e comunicados circulando na imprensa, que Cabo Verde está fortemente associado a estratégias, às vezes mesmo “liderando” diplomaticamente iniciativas, de afirmação da lusofonia no mundo, que já não é só defendida por Portugal e Brasil, como também por todos os países da CPLP, principalmente Angola. Certamente não passará pela cabeça do mundo lusófono ver o Eduardo dos Santos a discursar naquela assembleia em umbundu ou o Armando Guebuza a fazê-lo em emakhuwa, respectivamente suas línguas nacionais maioritárias. Esta é a questão. Estas contradições são flagrantes e só podem levar ao descrédito da voz Cabo Verde no mundo. Convém também realçar que neste aspecto o PM não foi seguido nem pelos diplomatas cabo-verdianos, nem pelo Presidente da República, que continuam todos a discursar na língua de Camões, como se nada tivesse acontecido. Por outro lado, se com a sua patética epifania nacionalista o PM pretendeu estimular o orgulho dos cabo-verdianos, o efeito foi o inverso por dois erros graves em que incorreu: esqueceu-se de que, ao falar na língua da sua ilha natal, que não é a de grande parte da nação cabo-verdiana, lançou a discórdia e a divisão no seio desta, até porque não está ainda definido o crioulo padrão e o PM não foi mandatado em circunstância alguma para fazer unilateralmente essa escolha; cobriu-se de ridículo ao patentear naquela assembleia uma atitude de paroquialismo bacoco e contrário ao espírito que se pretende fortalecer no seio da lusofonia.

Escritor Germano Almeida (CV)
Com efeito, é preciso recordar que os angolanos, por exemplo, e conforme se aduziu nos exemplos atrás citados, apesar de terem todos os seus dialectos nacionais, não se envergonham de o português ser a sua língua oficial e ferramenta indispensável e incontornável para a comunicação. O resultado da atitude aleatória cabo-verdiana é, hoje em dia, a língua portuguesa quase ter desaparecido do quotidiano do país, transformando-se numa língua desconhecida da maioria, mal dominada mesmo por pessoas altamente escolarizadas, ficando reservada a elites cultas, diplomatas, e usada exclusivamente na representação política de topo ou em festividades oficiais. Esta é a realidade de um país, dito lusófono ou de língua oficial portuguesa, onde não há acesso à literatura, a jornais, a programas televisivos de qualidade, e onde a cultura está ainda num estado incipiente. 

 Constitui na verdade, e sem dúvida, um problema gravíssimo, um impedimento ao desenvolvimento da nossa terra, o péssimo domínio pelos cabo-verdianos do português (e talvez de outras línguas), o que pode ser imputado a um deficiente sistema de ensino (colonial e nacional, ou ambos). Todavia, se antes da independência podia-se considerar que pessoas minimamente escolarizadas e as elites falavam correntemente o português, é um facto evidente que com a independência o domínio desta língua veio a degradar-se continuamente, chegando a uma situação crítica. Aqui deve-se destacar o papel das políticas contraditórias. É possível que se esteja a pagar os excessos de um radicalismo assistido no pós 25 de Abril, e que durou tempo suficiente para produzir efeitos maléficos. Ninguém saberá ao certo. Mas outra coisa não era de esperar quando, ao longo de 35 anos, se olhou de soslaio para o português, encarando-o como língua opressora de dominação colonial, e se continuou, no entanto, a usá-lo em todos os actos oficiais, ao mesmo tempo que se elegia o crioulo como o instrumento, por excelência, de libertação de um “povo dominado linguisticamente”, mas que paradoxalmente continua oprimido linguisticamente pelos seus “libertadores”. Esta ambivalência, tendo durado todo este tempo, não podia ter conduzido senão a resultados catastróficos. É triste ter de reconhecer que Cabo Verde é hoje dos países dos PALOP onde o desempenho da língua portuguesa é o pior de todos, comparando populações da mesma categoria socioprofissional. É um problema cuja análise e resolução não podem ser negligenciadas, pois as implicações serão muito sérias no futuro do país.

Em próximo artigo intitulado “A importância da língua nos desafios do mundo global”, concluiremos as nossas reflexões sobre este tema.

                                                                
 



segunda-feira, 10 de setembro de 2012

[0244] AINDA E SEMPRE, A ÁGUA EM CABO VERDE - NESTE CASO, NA ILHA DE S. VICENTE, EM 1954

Depois da chuva e de muitas conversas através do gmail de colaboradores do PB entre si e com amigos sobre o quase inexistente aproveitamento do precioso líquido em S. Vicente, aqui vai este texto do nosso arquivo sobre o tema (Diário Popular, 27.Abril.1954, p. 9). Quanto ao resto, valha-nos S. Alhinho!...

O texto é longo (não valia reproduzi-lo todo para o efeito) e nele até se compara o caminho para a Baía das Gatas com S. Martinho do Porto... Ficará para outra ocasião.




NA ILHA DE S. VICENTE
Turismo e água potável
Problemas que requerem estudo sério e iniciativa consciente
(...)
S. Vicente, ilha sem água - A opinião de um técnico americano

A propósito de Turismo: a água potável. É fama, na ilha, que, além do Madeiral e de um ponto situado a norte de S. Vicente [?] não tem água potável; de aí, a necessidade de a trazer de Santo Antão. Mas será verdade que a ilha não pode viver sem água salinizada?

Em 1932, esteve em Cabo Verde, durante seis meses, um técnico americano (o dr. Alexander Lvowich Zemliakoff) que, depois de executar vários trabalhos de exploração na ilha de Santiago, por incumbência do Governo da Província [Amadeu Gomes de Figueiredo, nota do PB] - com resultados «muito apreciados», segundo confirmou o chefe de gabinete do Governador - foi a S. Vicente, com o mesmo encargo, chegando «à conclusão de que há água de boa qualidade» na ilha, «na proporção de 100 por cento de água pura, suficiente para abastecer a cidade e aplicar a outros fins de utilidade pública».

Um dos terrenos em que o dr. Zemliakoff localizou água é conhecido pelo nome de «Floresta Negra» [o PB nunca ouviu falar deste local... será apenas nome de propriedade?] cujo proprietário, senhor Joaquim João de Morais tem procurado, embora baldadamente, conseguir a exploração das nascentes, o que, representando benefício para si, não o seria menos para toda a ilha.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

[0243] TCHUBA NA MINDEL

As fotos chegaram-nos através do "cônsul" oficioso de Cabo Verde em Tours, o nosso amigo e colaborador Valdemar Pereira; a ele, chegaram-lhe pela mão do trompetista cabo-verdiano Joaquim Soares Almeida "Morgadinho"; e a este vieram de alguém com as iniciais ABS. As fotos são muito recentes. Cortámos algumas, por se ver parte do automóvel de onde foram tiradas (parte da porta e do retrovisor) e endireitámos meia dúzia delas. Por outro lado, não publicamos aquelas onde se reconhecem rostos de pessoas. Há uma ou outra que não parece ser de S. Vicente, mas... Aqui fica, portanto, esta reportagem de mais um dia de água no Mindelo. Agradeçamos ao Deus cristão ou aos da mitologia a graça concedida e ao autor (cujo nome indicaremos, se ele se acusar), ao Morgadinho e ao Valdemar, também.

















quarta-feira, 5 de setembro de 2012

[0242] CRIOULO, CRIOULOS E A RECUSA DA CANGA CENTRALISTA, bases de mais um interessante texto de José Fortes Lopes

A Situação e o Estatuto dos Crioulos de Cabo Verde: A REGIONALIZAÇÃO E O DEBATE SOBRE O CRIOULO - 1.ª Parte

José Fortes Lopes


Faleceu no passado mês de Julho o nosso muito estimado Zizim (José Figueira Júnior), esse grande mindelense que dedicou a parte final da sua vida em defesa de um Crioulo democrático e tolerante, escrevendo e publicando na imprensa contos em Crioulo na versão mindelense, e usando um alfabeto etimológico em vez do ALUPEC, que é o alfabeto do pacote da “Oficialização do Crioulo” que o actual poder pretende impor aos cabo-verdianos de todas as ilhas do arquipélago. O Zizim teria apreciado saber que um debate sobre a Regionalização, e eventualmente sobre o Crioulo, foi anunciado e poderá vir a ocorrer em Cabo Verde.

O debate sobre o Crioulo tem sido uma constante nos últimos 50 anos, desde o tempo da administração portuguesa, passando pelo regime de partido único, até se chegar à actual democracia pluripartidária. Neste momento em que a Regionalização está na agenda nacional, faz todo o sentido trazer à colação a problemática do Crioulo, quiçá incluindo-a no mesmo pacote, como elemento indissociável daquela reforma do Estado em vista. Anteriormente, durante o regime colonial, esse debate era passível de arrostar sempre uma certa carga ideológica, causando constrangimento se não político pelo menos ao nível de possíveis ressonâncias culturais indesejáveis para o poder então vigente. De facto, por hipótese alguma se daria aval à projecção de uma língua que concorresse com a língua oficial e de Estado. O resgate do Crioulo para a luz da ribalta, no pós-independência, em clima festivo de total liberdade de expressão e pensamento e de extravasamento efusivo de tudo o que era recalcado, aparece associado à visão de um Crioulo como instrumento de libertação.

Todavia, é com o advento da democracia que o debate sobre a língua toma um cariz mais técnico, com o pressuposto da necessidade de compreender e estudar a sua génese, desde logo associando-a àquilo que os sucessivos regimes consideram essência da nação cabo-verdiana. E é então que se prevêem dispositivos institucionais para a sua protecção, dentro de um sistema bilingue, onde o Português ficou, no entanto, definido como a língua de comunicação oficial, possivelmente até ulteriores etapas para a consagração plena da chamada “língua materna”, numa situação de bilinguismo assumido, onde o papel da língua portuguesa, por questões práticas, não poderia nem deveria ser posto em causa. Porém, nos últimos 10 anos, sob a batuta do PAICV, ressurge o debate sobre o Crioulo numa perspectiva marcadamente ideológica, desta vez sob uma bandeira identitária santiaguense, com o Crioulo a ser apresentado como um instrumento de libertação de um “povo dominado linguisticamente”. Tese surrealista muito cara ao que resta de uma certa elite maniqueísta cabo-verdiana saída do esquerdismo do 25 de Abril, bem como a certos sectores ligados ao actual poder e ainda muito presos a algum radicalismo mental, para quem uma ruptura total com a considerada “língua de domínio colonial” seria uma maneira de enterrar traumas ainda não resolvidos, ainda que usando um discurso ambivalente ou ambíguo para ocultar o seu verdadeiro íntimo.

Se a instauração de um processo de estudo dos Crioulos de Cabo Vede parece louvável, já a oficialização prematura e apressada do Crioulo aparece, todavia, mais como um “coup de force”desses grupos Fundamentalistas, como Onésimo Silveira os caracteriza, apoiados e financiados pelo Governo, apanhando de surpresa muitos cabo-verdianos que andavam mergulhados no sono da sua apatia e demissão cívica. Talvez porque ninguém imaginasse semelhante ousadia, súbito despontou nos espíritos uma apreensão generalizada sobre as consequências de uma aventura que pode ser desastrosa por significar o fecho umbilical linguístico de Cabo Verde, medida por certo encarada como essencial para um utópico e irrealista retorno às “origens”, isto na perspectiva dos Fundamentalistas, o que só pode acarretar um retrocesso do país face aos padrões culturais a que se moldara. O regime, para satisfazer a sua base de sustentação sociológica ou mesmo étnica, e em coerência com uma matriz ideológica que remonta aos tempos da luta de libertação, onde o sonho e a utopia não tinham limites, lançaria assim o país numa perigosa aventura, mediante uma precipitada adopção do uso do Crioulo como futura ferramenta de trabalho, ao mesmo tempo que desincentivando o uso corrente do Português, relegando-o para o plano de uma mera língua estrangeira, numa altura em que não existem condições para que tal ocorra.

Aquilo que devia representar um lento e gradual processo de maturação e experimentação, ao longo de décadas, lustres ou mesmo séculos, envolvendo investigação e estudo académicos sérios, com investigadores experimentados e a elaboração de estudos e análise de cenários prováveis, que poderiam apontar inclusivamente para a sua ineficácia, aparece apressadamente como um processo acabado, um prato pronto a ser servido friamente a Cabo Verde e aos cabo-verdianos. Nunca se vira tanta ligeireza em Cabo-Verde, quando, numa questão de semelhante delicadeza, seria de esperar muita cautela e bom senso, a “sagesse” e, necessariamente, o diálogo. E isto quando Cabo Verde continua bastante vulnerável e confrontado com questões inerentes à sua viabilidade: o país não tem recursos, está ainda totalmente dependente da ajuda externa financeira da comunidade internacional para a sua sobrevivência e o seu desenvolvimento, incluindo a garantia dos instrumentos básicos para a afirmação da sua soberania. Sendo inquestionável a intenção que subjaz à defesa e dignificação do Crioulo, o processo da sua oficialização poderá obviamente ser aprovado em sede democrática, mercê de uma maioria unicamente de base numérica, mas nunca o será com a legitimidade que só pode ser conferida por um escrutínio alargado, qualificado e diversificado, como impõe uma questão de tamanha delicadeza e importância para o futuro do país. Mas claro que não foi assim nem parece haver preocupação de agir de outra maneira. Primeiro, tentou-se iludir os cabo-verdianos com o anúncio de que oficialização da versão, dita, badia do Crioulo, estava apenas circunscrita à chamada “República de Santiago”, como símbolo de uma assumida identificação sociológica e cultural com o que se considera a “origem”. Tal atitude confunde abusivamente as pessoas, que “naivement” tenderiam a convencer-se de que se está oficializando os “Crioulos”, como denuncia com toda a razão Onésimo Silveira nos seus recentes artigos. Mas como pedir bom senso num país em que a corrida desenfreada ao “progresso e desenvolvimento” induzido de fora e assente na assistência internacional, não dá tempo para pensar em todas ou diferentes opções sobre importantes matérias de interesse nacional? Com efeito, esta marcha forçada e apressada é intencional para que as pessoas não reflictam nas suas sérias implicações, pois o que se pretende é recriar o paradigma do Estado-Nação, Unitário e Homogéneo, típico do século XX, mediante a fusão genética num único povo, o cabo-verdiano idealizado, injectando-lhe a fusão linguística dos Crioulos numa Língua Unitária, a língua cabo-verdiana idealizada e utópica, e com uma Administração Política e Económica Unitária e Centralizada na Praia (configurando assim assim o ideal do Estado, napoleónico, jacobino, centralista e burocrático). Compreende-se esta atitude como sendo a tendência normal dos Estados em processo iniciático de consolidação, mas, como diz o ditado, não se podem fazer omeletes sem se quebrarem ovos. Porém, o busílis da questão reside na circunstância concreta de nem todos os ovos serem propriedade do cozinheiro-mor, pois não é possível iludir o carácter arquipelágico e regionalista de Cabo Verde, sendo de todo impossível fazer desaparecer os Crioulos e a ‘biodiversidade’, no sentido lato, do país. Relativamente a este aspecto, Onésimo vem lembrar ‘Aqui D’el Rei’ que no Arquipélago de Cabo Verde existem formalmente Crioulos e não um Crioulo como pretendem. Nenhum teórico, por mais brilhante que seja, pode convencer alguém do contrário. Nesta situação, é legítimo que se re-instaure um debate sobre os Crioulos de Cabo Verde. E não adianta lançar acusações de anti-patriotismo e de inimigo do Crioulo aos que propugnam pela racionalidade da solução do problema. Um confronto levado a este extremo fica completamente poluído por emoções nocivas. E aí reside precisamente o grande pomo de discórdia que tem assombrado uma discussão que só pode pautar-se por clarividência e serenidade. E o governo em vez de serenar os ânimos, suspendendo o processo, acrescenta ainda mais confusão com os diversos anúncios que vem lançando em matéria de Oficialização do Crioulo.

No seu último artigo, Onésimo Silveira refere-se ao debate sobre os Crioulos: “Para eles, não há ilhas, mas sim uma ilha-continente; não há sociedades cabo-verdianas, mas sim a sociedade da sua ilha; não há Crioulos, mas sim um Crioulo, o seu, que a “língua materna” tem de impor às ilhas periféricas.” O mesmo autor adverte os chamados Fundamentalistas para o erro de olhar para a democracia como exclusivamente legitimada pela aritmética eleitoral, esquecendo que ela pode vir a ganhar os mesmos germes de permissividade e violência psicológica de um regime de ditadura. Mas neste preciso domínio nos encontramos felizmente resguardados pelo constitucionalismo democrático que garante um sistema eficaz de freios à acção do governo. Infelizmente, Cabo Verde continua a ser um campo de experimentação de uma certa esquerda sonhadora, nomeadamente no campo da cultura, que se converteu na chamada “gauche caviar”, que, no entanto, quando lida com o poder e o dinheiro se revela de um pragmatismo a raiar a hipocrisia e a negação dos valores e princípios por que devia propugnar. É esse mesmo sector da nossa sociedade que, mandando às urtigas os seus engulhos e complexos mal resolvidos, não abdica de cultivar o Português erudito e de tentar obter nacionalidade portuguesa. Onde está a coerência? A advertência de Onésimo vem mesmo a propósito, colocando os pontos nos ‘is’: Em cada ilha deste arquipélago existe uma realidade concreta e objectiva: pessoas de carne e osso, não meros eleitores, falando quotidianamente os seus Crioulos, não havendo lugar para um Crioulo Oficial, Imaginário e Utópico. Nenhuma medida política ou administrativa pode redesenhar esta realidade.

Mas num país onde o amadorismo floresce e ganha terreno cada dia (ver o debate que tem ocorrido na sociedade civil sobre proliferação de universidades e escolas sem conteúdo, projectos insustentáveis), é fácil revender banha da cobra e requentar várias vezes pratos pré-cozinhados. Acostumados a comer gato por lebre, ou a pôr óculos verdes às cabras para poderem comer pedra, muitos cabo-verdianos rejubilam-se na unanimidade do discurso politicamente correcto sobre o Crioulo libertador, sem se perspectivar os problemas decorrentes de uma oficialização precipitada do Crioulo e da eliminação do Português do quotidiano cabo-verdiano e a enorme ratoeira em que o resto de Cabo Verde se mete. Nunca se debateu nem se apresentou os prós e os contras, os riscos desta opção, numa sociedade onde o debate de ideias e discussões públicas sobre o futuro de Cabo Verde são incipientes ou inexistentes. O Governo ainda não explicou como vai resolver a problemática dos Crioulos, deixando tudo para improvisação e a batata quente para outros, pois alguém terá de, consciente e responsavelmente, escolher uma das três soluções. Ou se tende para Crioulo-Esperanto, fusão artificial e utópica de todos os Crioulos, fazendo desaparecer as outras versões do Crioulo; ou se oficializa todos os Crioulos de uma vez e em todas as ilhas, o que corresponde a uma situação insustentável, típica de Torre de Babel; ou se oficializa simplesmente o badio, como via experimental para o Crioulo padrão a oficializar (é sabido de antemão que oficiosamente o governo vem experimentando a implementação do badio como Crioulo oficial, apesar de pretenderem o contrário. Os sinais exteriores denunciam essa atitude dúbia). As três soluções sobre a mesa são, portanto, e a priori, inviáveis ou inaceitáveis. (A problemática da língua portuguesa, outro assunto bicudo, será discutida na 2ª Parte deste artigo).

O primeiro risco da oficialização do Crioulo-badio tem a ver com o reforço do efeito centrípeto desta medida, com incidências inevitáveis no centralismo, desta feita em termos linguísticos. Mas pergunta-se se o mindelense ou o santantonense abandonarão os seus Crioulos para abraçarem o badio ou o Crioulo-Esperanto? É bom que os governos, e quaisquer que eles sejam, tenham em atenção a gravidade que reveste a deliberada e programada extinção do património linguístico e cultural das ilhas do arquipélago, com a imposição de um Crioulo eleito como padrão e a tentativa de extinção, não natural, das outras versões. Para além de ilegítima, seria um atentado à diversidade cultural cabo-verdiana. É bom que saibam que podem ter de responder tanto perante os cabo-verdianos como perante a comunidade internacional. (Continua: A Situação e o Estatuto da Língua Portuguesa em Cabo Verde: A REGIONALIZAÇÃO E O DEBATE SOBRE O CRIOULO)