segunda-feira, 15 de outubro de 2012

[0264] ADRIANO MIRANDA LIMA: a continuação... (ver posts 256, 257 e 259)

TROPAS EXPEDICIONÁRIAS PORTUGUESAS A CABO VERDE NO PERÍODO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

4 - A  Actividade Militar e o Meio Físico Envolvente


Adriano Miranda Lima
Lembro-me de, no meu tempo de menino e moço, ouvir a minha mãe cantarolar uma canção, género fado, que ela dizia ser da autoria de um militar expedicionário destacado na ilha do Sal. Segundo a minha progenitora, o poema da canção aludia à ilha agreste e desolada aonde o destino levara o militar para a honrosa missão de defender o solo pátrio. Actualmente com 90 anos, ela recorda-se ainda destes versos da composição: “lá na ilha do Sal/De picareta na mão/Abrindo uma trincheira/Para defender Portugal…”.

Este breve apontamento com enfoque na ilha do Sal é uma introdução ao que se segue, porque o meu objectivo prende-se mais com as tropas mobilizadas para a ilha de São Vicente e sua vizinha Santo Antão, até porque pouca ou quase nenhuma informação possuo sobre a actividade e vida dos expedicionários no Sal. No entanto, não se exclui a possibilidade de esta narrativa vir a contemplar aquela ilha, assim o permitam a obtenção de registos oficiais ou testemunhos orais elucidativos, até porque o “Praia de Bote” não é indiferente à história de Cabo Verde como um todo, ainda que a referência editorial do blogue se cinja mais à ilha do Porto Grande, em fidelidade ao lugar do mesmo nome onde palpita o coração do Mindelo.

Imagem de desembarque de tropa no antigo "Cais Novo" de São Vicente - Foto de autoria desconhecida

De facto, as tropas expedicionárias chegaram a Cabo Verde numa altura em que o arquipélago era assolado por uma terrível e prolongada estiagem que afectava sobremaneira as ilhas de vocação mais agrícola, como Santo Antão, São Nicolau e outras, ceifando vidas humanas nas populações que dependiam exclusivamente do que extraíam da terra para a sua sobrevivência. Segundo registos oficiais, entre 1940 e 1948, houve cerca de 50 mil mortos, directa ou indirectamente causadas pela fome, em todo o território, ocorrendo 24.463 entre 1941 e 1943, período em que as forças expedicionárias estiveram em Cabo Verde na sua maior força. Esta referência é importante para se compreender o ambiente físico onde as tropas metropolitanas intervieram. E é de sublinhar que se os militares da metrópole tiveram a desdita de desembarcar numa terra por natureza marcada pela extrema aridez, a prolongada ausência de chuva tornava-a naqueles anos ainda mais “nanhida”(1).

Mindelo, em 1943 - Foto do blogue de Luís Graça

Para agravar as consequências daquela situação, a guerra mundial e as restrições de circulação marítima impediam a normalidade de abastecimentos que poderiam atenuar as carências alimentares e o flagelo da fome nas ilhas, caso Salazar viesse a preocupar-se verdadeiramente com um território pobre e longe do coração do império. Embora os navios neutrais portugueses pudessem circular sem grandes riscos, mas com as limitações indirectamente provocadas por um mundo em ebulição, o mesmo não acontecia com a navegação comercial dos países aliados envolvidos no conflito, ela, sim, muito condicionada pela ameaça dos submarinos alemães. Ora, tudo isto reduzia flagrantemente a normal actividade comercial do Porto Grande e prejudicava a chegada de qualquer eventual assistência humanitária proveniente do estrangeiro, mormente por iniciativa das comunidades cabo-verdianas emigrantes, que, no entanto, ainda agiram dentro das suas parcas possibilidades.

Perante este cenário, imagino a sensação dos rapazes quando puseram os pés em terra e olharam para a paisagem lunar dominante em grande parte das ilhas. É bom que se diga que eles não procediam de um território bafejado pelo progresso material de outros países europeus, bem pelo contrário, pois a pobreza era uma constante em todo o espaço nacional, não obstante a dimensão e as potencialidades globais do império. Contudo, a paisagem natural a que aqueles militares estavam habituados nenhuma semelhança tinha com o que depararam à chegada. Mas, com o transcorrer do tempo, não demorariam a superar as justas razões da sua estupefacção, à medida que foram vendo a secura inóspita da terra cabo-verdiana compensada pela alma verdejante das suas gentes, surpresa agradável que muitos talvez não esperassem.

As unidades desembarcaram e rumaram logo para os locais de destino previstos. No que respeita ao dispositivo da ilha de São Vicente, o Batalhão de Infantaria 5 (proveniente das Caldas da Rainha) ficou sediado na zona do Lazareto, o Batalhão de Infantaria 7  (proveniente de Leiria) na zona de Chã de Alecrim, e o Batalhão de Infantaria 15 (proveniente de Tomar) foi logo para Santo Antão, sediando-se no Porto Novo, com excepção da 3.ª Companhia de Atiradores e de um pelotão da Companhia de Acompanhamento, que ficaram em São Vicente, mesmo dentro da área urbana do Mindelo. A artilharia de defesa de costa ficou instalada no Morro Branco e em João Ribeiro, enquanto a artilharia antiaérea não poderia ter encontrado posição tecnicamente mais adequada que o cimo do Monte de Sossego, que lhe conferia visão simultânea sobre o Porto Grande e sobre os pontos críticos da cidade do Mindelo.

Como emana do “conceito de operação” normal de um plano de defesa em teatro com estas características singulares, é irrefutável que aquelas forças não tinham de ficar concentradas. Infelizmente, não disponho dos quadros orgânicos criados para os batalhões, admitindo que devem ter sido dimensionados à missão específica que receberam, naturalmente não decalcados da organização rotineira de tempo de paz. Também não encontrei dados sobre o pormenor descritivo do plano defensivo das ilhas militarmente ocupadas. Esta observação só vem à baila porque o seu conhecimento permitiria saber com alguma exactidão que tipo de abrigo permanente foi destinado às tropas, se é que a totalidade o teve em permanência e com requisitos de razoável protecção contra as intempéries e os rigores do clima. Não é despicienda esta questão porque ela estará relacionada com a exagerada morbimortalidade que viria a ocorrer entre as tropas. Mas o certo e seguro é que as subunidades desses batalhões de infantaria ocuparam rotativamente posições em outros pontos das ilhas em causa, em situações similares às de campanha, o que significa habitar em tendas nas proximidades de um dispositivo de trincheiras preparado conforme a doutrina das operações defensivas (organização do terreno). A seu tempo, veremos que regiões foram ou terão sido ocupadas dentro de um plano de rotatividade entre as companhias e pelotões dos batalhões. As unidades de artilharia é que, por regra, não se submetem às mesmas privações a que não escapa a infantaria, porque são inseparáveis das posições onde são instaladas as suas armas orgânicas, normalmente contemplando estruturas permanentes. 

Como já se disse, Portugal assumiu a neutralidade no conflito mas, não obstante, decidiu reforçar a defesa das suas ilhas não fosse o diabo tecê-las, mas só o fazendo quando se viu pressionado pela Inglaterra e pelos EUA. Esta circunstância não permitiu certamente que se observasse, em grau aceitável, o princípio de que a logística deve preceder a chegada das tropas. Esse princípio é sempre observado quando a situação militar permite uma certa previsibilidade, e não julgo que tenha sido esse o caso, pelo menos em grau suficiente, não só por causa da urgência que ditou a mobilização das forças expedicionárias como também pelo facto de o exército português não se encontrar àquela época reestruturado, apetrechado e reorganizado como viria a estar anos depois, na década de 1950. E não se esqueça que Portugal mobilizou forças de efectivo muito mais volumoso para as ilhas adjacentes. Deste modo, o primeiro problema a resolver, e porventura dos mais prioritários, foi o do aquartelamento e alojamento das tropas. Sei que, tanto quanto as possibilidades locais o permitiram, recorreu-se ao aboletamento (2) de oficiais e sargentos em casas particulares e pensões, pelo menos em parte e numa fase inicial, ao mesmo tempo que se utilizaram instalações de campanha (tendas e barracas), enquanto não eram construídos aquartelamentos.

Foto cedida pelo filho do capitão Paiva Nunes

Na foto pode ver-se um aspecto do aquartelamento do Porto Novo, com o tipo de construção improvisada imposto pela urgência do momento. Nela está o capitão Mário de Paiva Nunes, comandante da Companhia de Comando e Trem do BI 15 e uma praça (não é visível se soldado ou cabo) que era o seu “impedido”. Esta designação dava-se a uma praça ao serviço pessoal de um oficial, regalia que normalmente era fruída a partir do posto de capitão. Esta imagem tem a dupla finalidade de revelar um apontamento humano e uma visão do aquartelamento do Porto Novo com a paisagem inóspita à volta. A fotografia tem nas costas as seguintes palavras escritas pelo punho do oficial: “Aos meus queridos pais, com muitas saudades e um grande abraço. Foto tirada em Porto Novo, Santo Antão, no dia 15 de Abril de 1942. (Além da minha pessoa, lá está o Augusto, os barracões do aquartelamento e as serras da ilha de Santo Antão. Entre nós e o aquartelamento, é a “parada do quartel”, feita pelos soldados). Assinado: Mário”.

Imagem do aquartelamento de Chã e Alecrim (BI 7), São Vicente, colhida em 1944

As instalações apresentadas nessas fotografias são precursoras das pré-fabricadas que passariam anos volvidos a ser conhecidas como aquartelamentos JC (3), que são construídas à base de estruturas de ferro e madeira com cobertura de zinco, assentes em base de alvenaria. Embora mais tarde remodeladas, ainda restam vestígios de instalações desse tempo na zona de Chã de Alecrim e também, segundo penso, no ainda existente aquartelamento do Morro Branco. Segundo me informou o proprietário deste blogue, Dr. Joaquim Saial, mantêm-se algumas dessas construções no Porto Novo, em Santo Antão, aproveitadas para fins civis [ver duas fotos, no final deste texto]. Provavelmente, a mesma solução terá sido parcialmente adoptada na ilha do Sal, isto é, reservada apenas à acomodação de estruturas de comando, órgãos de apoio e serviços logísticos, os quais, pela sua natureza, requerem um mínimo de condições para garantia da necessária funcionalidade operativa. Quanto ao alojamento das tropas quer no Sal quer mesmo em Santo Antão nalguns casos, testemunhos de alguns expedicionários referem que a tenda foi o único recurso.

Por exigência da especificidade da sua missão, instalações militares mais sólidas foram construídas para as baterias de artilharia de costa, respectivamente no Morro Branco e em João Ribeiro, e igualmente para a bateria antiaérea do Monte de Sossego. Com efeito, incorporaram estruturas de betão com cobertura superior e protecção lateral, conforme cada um dos casos, cujos vestígios ainda são visíveis em São Vicente.

Aspecto das instalações da bateria de artilharia antiaérea de Monte Sossego - Foto cedida pelo filho do capitão Paiva Nunes

Associado ao problema da instalação em aquartelamentos permanentes com um mínimo de condições, as tropas depararam-se também com dificuldades para o normal reabastecimento de víveres e água, tendo em conta as grandes limitações em recursos locais para fazer face à logística de tão elevados efectivos. A água para fins alimentares não tinha outra origem que não a proveniente de Santo Antão, recolhida em Tarrafal de Monte de Trigo por navios tanques, não dispondo eu, por enquanto, de informação sobre algum reforço militar dos meios normais de São Vicente (“vapores de água”) para essa função logística. Quanto à distribuição interna de água dentro da ilha de São Vicente houve grande actividade de camiões cisternas do exército incorporadas nos meios logísticos da força expedicionária. Intriga-me é a solução encontrada para o problema da água para consumo humano para os três batalhões e a bateria de artilharia e serviços de apoio destacados para o Sal, mas é assunto ainda em pesquisa. Em Santo Antão este não foi dos maiores problemas, apesar da prolongada seca que se vivia. Para a higiene pessoal é natural que se tenha utilizado a água salobra, como a generalidade das populações, tanto em São Vicente como no Sal.

Continua…

ACHEGA DO PRAIA DE BOTE: o PB junta duas fotos de equipamentos referenciados por AML em Porto Novo. Uma é o próprio quartel da localidade, em foto de 25 de Julho de 1999, altura em que servia de parque de viaturas da Câmara Municipal; a segunda mostra as "casas de cabos" do Exército Português, eventualmente edificadas em época mais tardia do que a focada no texto de AML. Em 1999, a da direita estava em obras de acrescentamento de um quarto. Ali reside um grande amigo nosso, o sanvicentino e mnine de Monte Sossego Afonso Henrique Alves,  que se vê na foto, então funcionário da CMPN.



(1) Termo crioulo que significa extrema secura e esterilidade. É utilizado, por exemplo, no romance “Hora di Bai”, de Manuel Ferreira, que foi um expedicionário (furriel miliciano) integrado no BI 7.
(2)Termo que significa a instalação de militares em casas particulares.
(3) Os aquartelamentos JC foram uma criação do major de engenharia João dos Santos Correia, mais tarde brigadeiro, que, por isso, receberam o nome do seu inventor. Consistiam em módulos numerados e agrupados para cada fim (caserna, edifício de comando, refeitório, enfermaria, etc.).

Tomar, 14 de Outubro de 2012
Adriano Miranda Lima

6 comentários:

  1. Comentário da nossa amiga sanvicentina Nita Ferreira:

    Tenho estado a acompanhar o PRAIA DE BOTE, com carinho. Devido a um problema técnico no meu pc não tenho feito qualquer comentário, mas em troca, imprimi os artigos de Adriano Miranda.

    Nita

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  2. Com muita emoção vou acompanhando os apontamentos do meu Amigo Adriano, Coronel Miranda Lima e, muita lembrança sobressai. No que concerne o abastecimento da àgua vinda de Tarrafal do Monte Trigo posso avançar a 99% que tudo era assegurado pela Ferro & C°, ou seja a àgua da Vascônia. Dali saim os autotanques que faziam a distribuição.

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  3. A matéria é mais que interessante e suscita a minha admiração ver como este esforçado militar-invstigador tem procurado desenterrar das profundas do esquecimento um tema que tanto interessa a Cabo Verde, particularmente à ilha de São Vicente. Porém, os comentários são escassos, ao invés das leituras que as estatísticas do blogue demonstram, bem mais confortáveis.

    Sugerimos pois aos leitores que dêem o seu contributo ESCRITO, não deixando nos confins dos neurónios aquilo que sabem sobre o tema e interessa a todos. Escrita, precisa-se...

    Braça expedicionária,
    Djack

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  4. Excelente artigo na linha daquilo que o Adriano sabe fazer. Enquadrou bem a situação do arquipélago do ponto de vista socioeconómico, na conjuntura difícil da 2ª Guerra Mundial.O que ele descreve aqui é também parte integrante da história de Cabo-Verde, envolvendo património material e imaterial (que como muitos outros está ao abandono ou ao Deus dará, quando não é valdalizado ou demolido), se não forem tomadas medidas de recuperação e valorização, desaparecem.
    José F Lopes

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  5. Este comentário é actual:

    Existe na Biblioteca um livro de memórias do Batalhão que esteve no sediado na ilha do Sal ( não me recordo o nome do livro que é exemplar único)Só emprestam a quem o requisitar com assinando um termo de responsabilidade... Sei que é bastante ilustrado e completo... Por isso quem estiver interessado " guia de marcha" para Setúbal...

    Bom fim de semana

    Amendes

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