sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

[0760] O temível, descarado e impante Mr. Eden Park - POST ACTUALIZADO - Leia a parte final

Mr. Eden Park, que afinal existe desde sempre, embora com caras diversas, é construtor civil, vulgo pato-bravo. Apresenta-se agora no Mindelo este primo de Miss Delegacia de Saúde (pata-brava como ele), mais uma vez, em toda a sua glória de ogre ganancioso e alheio a elementares regras de preservação da memória cultural e visual e do bom gosto. Mr. Eden Park constrói para as alturas - de tamanho predial e de tamanho de cofre. Mr. Eden Park pensa sempre em grande, lançando-se na vertical mas também na horizontal, superando-se de tal modo que está prestes a chegar ao fim do horizonte, à celestial abóbada e às profundezas do magma terrestre. Fugi dele, povo do Mindelo! Ou então, acordai, tomai de novo o destino nas vossas mãos, como fez o capitão Ambrósio, e refreai-o, pondo sacos de areia no caminho que ele trilha (ou cascas de banana de Santo Antão), sempre mais, sempre mais, sempre mais, uns sobre os outros, fazendo dique às investidas do monstro. Quando não, povo do Mindelo, vereis a vossa antes bela cidade varrida do mapa por Mr. Eden Park e parte significativa da vossa identidade perdida. Para sempre... Porque sacos por sacos, antes vinguem os da luta! E porque se o deixardes progredir, então estareis de facto numa res publica de bananas que vossos pais e avós nunca desejaram para os seus filhos e netos...


Praia de Bote acaba de receber a notícia inacreditável mas verdadeira (que divulga mundialmente em primeira mão) através do seu amigo Nhelas de Mato Inglês, auxiliar do ajudante do adjunto do secretário do conselheiro do Vereador do Pelouro dos Fenómenos Destrutivo-Construtivos da Câmara Municipal de São Vicente:

No projecto para o novo Eden Park ali entregue há dias pelo arquitecto Djom Saquim d'Dnher Lopes Pina Évora Semedo Lima pode ver-se um passeio pedonal aéreo (escamoteado no projecto que tem vindo a ser divulgado em vários blogues) que assenta de um lado no topo do Mindel Hotel e no outro no novo edifício edenparkiano. Chamar-se-á "Blue Brick Road", por ser atapetado com tijolos azuis, cor dominante dos dois maravilhosos edifícios e destina-se a passagens de modelos e blocos de Carnaval e também de alternativa ao "rudiá" da Praça Nova, para a qual haverá ligação através de elevador ultra-rápido que terá como terminal as instalações sanitárias da Praça Nova, junto ao coreto (bilhetes a 500 escudos). A "Blue Brick Road" apresentará uma pista de ida e outra de volta, para assim se poder descongestionar o previsto fortíssimo trânsito de utentes que a cruzarão (M'ta bá p'Hotel, m'ta bá pa Eden Park..).

Praia de Bote agradece ao Nhelas a confidência e considera que assim o projecto que tem causado tanta polémica tem afinal razão de ser, pois constituirá sem dúvida alguma, após a devida propaganda junto dos operadores turísticos, motivo de chegada de inúmeros paquetes carregados de forasteiros desejosos de verem mais este fenómeno construtivo da cidade do Monte Cara.

A "Blue Brick Road" a construir sobre a Praça Nova - Em primeiro plano, vê-se a pista de ida; à esquerda, vislumbra-se a de volta... ou vice-versa

[0759] Notícias do Tarrafal de São Nicolau



[0758] O Presidente Craveiro Lopes, pela primeira vez em Cabo Verde, nessa qualidade, em 1954

Duas notícias do "Diário Popular", vespertino de Lisboa, já extinto:

21.Maio.1954, p. 1
JORNADA AUSPICIOSA [anuncia-se a primeira viagem que o Chefe de Estado, general Craveiro Lopes, fazia nessa qualidade a S. Tomé e Príncipe e Angola, prevendo-se escala em Cabo Verde; «a viagem até à ilha do Sal, primeiro ponto de paragem, estava calculada em nove horas. E assim sucedeu, como noticiamos noutro lugar. Só amanhã prosseguirá a viagem para S. Tomé, cujo percurso deve ser feito em 12 horas e 30 minutos.», dizia-se no DP]. 

22.Maio.1954, p. 1
O CHEFE DO ESTADO CHEGOU A S. TOMÉ ONDE FOI ENTUSIASTICAMENTE RECEBIDO – (…) A PARTIDA DA ILHA DO SAL – Ilha do Sal, 21 – O Chefe do Estado e o ministro do Ultramar, acompanhados de suas esposas e comitiva, almoçaram no hotel do aeroporto com o governador da província [tratava-se do desembargador Dr. Manuel Marques de Abrantes Amaral que esteve no cargo entre 1953 e 1957] e esposa. Cerca das 19 horas, o ministro do Ultramar, acompanhado pelo governador, chefe de serviços de administração civil, presidente da Junta local e director do aeroporto, visitou as salinas e Pedra Lume. O sr. comandante Sarmento Rodrigues percorreu com o maior interesse as respectivas instalações, assim como a cratera do vulcão, que se encontra extinto, e de onde se extrai o sal. Visitou ainda o pequeno porto que serve para a exportação daquele produto. O ilustre visitante dirigiu-se depois a Porto de Palmeira, visitando os depósitos da companhia «Shell» e o pipeline que abastece de gasolina o aeroporto pelos processos mais modernos, únicos existentes em aeroportos de África. (…)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

[0757] Agradecimentos e indicação para o regresso

NOTA de 21 de Fevereiro, posterior à feitura do post: Pd'B estranha que não haja comentários mais directos a este post. Ninguém conhece ninguém? Ó diabo, essas memórias andam fracas... ou então, de facto, ninguém conhece ninguém... mesmo!

Praia de Bote agradece aos amigos que deixaram aqui os seus votos de sucessos palestrais (ou que o fizeram por correio electrónico) e refere que o regresso se fará com a cobertura total da visita do Presidente Craveiro Lopes a Cabo Verde, em 1959. Para aguçar o apetite, aqui fica uma notícia de 1953, no Diário Popular, relacionada com o mesmo Presidente - e com Cabo Verde, como não podia deixar de ser.

7.Agosto.1953, p. 6
FILIADAS DA «MP» DE CABO VERDE CHEGARAM HOJE A BORDO DO SERPA PINTO

O Serpa Pinto, em local não identificado
Chegou hoje ao Tejo o paquete Serpa Pinto, com 382 passageiros, entre os quais diversos professores do liceu, que vêm passar as suas férias à Metrópole. A maioria dos passageiros procede de Cabo Verde e do Funchal.

A bordo vieram seis filiadas da «Mocidade Portuguesa» de Cabo Verde: Mafalda Augusta Cordeiro Furtado de Carvalho, de S. Tiago; Maria Vieira Ferreira, de S. Vicente; Annete Felicidade de Almeida, de Bissau [? – no DP de 31.Agosto, é dada como sendo de Cabo Verde]; Ester da Silva Barros e Gabriela Lopes Mariano, da Praia; e Cristina Duarte de Almeida, de Santo Antão. São todas estudantes do Liceu Gil Eanes, de S. Vicente, e acompanham-nas as professoras sr.ªs D. Maria Estrela Morais Barroco e D. Ondina Clarisse Barroco.

Emblema da MPF
No cais aguardavam as filiadas a comissária adjunta da «MP» Feminina, sr.ª D. Fernanda d’Orey; a médica dos Serviços Clínicos, sr.ª Dr.ª Alda Firmino; e grande número de filiadas, entre as quais as três que ontem chega-ram da Guiné. [Nota do Pd'B: estas filiadas juntaram-se a outras, das restantes colónias, tendo todas visitado lugares históricos e turísticos de Portugal continental. A 29.Agosto, as filiadas apresentaram cumprimentos ao Chefe de Estado, general Craveiro Lopes, e ao Presidente do Conselho, Oliveira Salazar. No dia 25.Setembro, pelas 15h30, regressaram a Cabo Verde e à Guiné as filiadas dessas colónias, por via marítima, no Ana Mafalda (DP, 24.Setembro).]

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

[0756] Praia de Bote encerra até dia 28

Praia de Bote está a preparar a palestra abaixo anunciada. A coisa é muito divertida e entusiasmante mas requer aplicação e atenção redobrada na recta final, antes do dia marcado. De modo que se fecha a loja por uns dias, pedindo-se desculpa aos nossos "clientes" pelo incómodo. Entretanto, estes poderão ler os mais recentes posts e comentá-los. Quando estiverem fartos, que dêem uma volta ao "Esquina do Tempo" ou ao "Arrozcatum". Até breve, então.






Arte pública ao virar da esquina, diz o título do convite. Mas, que esquina?

     A do palácio Almada, na capital, obviamente, onde se reuniu clandestino grémio conspirativo para a restauração da independência portuguesa, 60 anos extorquida ou, melhor cartografando, uma das esquinas do Largo de São Domingos, em época manuelina ungido com sangue judeu. Largo este com sua igreja de casamentos reais e incêndio inesquecível, olhando o teatro mariano e nacional, palco de semelhante fogo. E cotovelo também da Rua das Portas de Santo Antão, as da medieva muralha fernandina, com pano ainda visível e visitável ao fundo do jardim do dito paço. De igual modo da Estação Central (de comboios) do Rossio e de uma das duas pequenas Broadways alfacinhas de teatros e cinemas, uns vivos, outros desaparecidos mas não da memória colectiva, até de um Coliseu de circos de passada infância, óperas, concertos e cantorias diversas, roqueiras ou não. E de restaurantes populares de "Come e Bebe" ou de "come em pé" ou de luxo, activo o dos presuntos e o "Gambrinus", liquidado o "Escorial", agora sítio de comezainas mais chãs. E esquina de ginjinhas várias, três pelo menos ali bem perto, com ou sem elas. E ângulo próximo do Rossio, Restauradores, Avenida da Liberdade e Praça da Figueira, a tal sem praça nem figueira mas ainda Praça. Com vizinhança de chapelarias já raras na cidade, lojas de sapatos e malas, estaminés de souvenirs, um "Nicola" bocagiano, uma "Suíça" pasteleira e turística, fora sítios de comida plastificada, ourivesarias, uma Casa da Sorte para quem a tem e de mil e uma outras locandas, até do B&B, mortos ambos os Brazes e a loja… encolhida. E da Rua Barros Queirós, de peões – e pioneira nisso, antes de outras pedonais de recente promoção. E de mil e uma nacionalidades e gentes, em particular africanas e crioulas (que não são a mesma coisa), nos seus falares estranhos, capulanas e gindungos. E de célebre hospital dos santos todos, que curava o corpo mas também da tenebrosa Inquisição no Paço dos Estaus que pretendia tratar o espírito… 

     Esquina de tudo isso e de muito mais e de curiosas peças de arte pública olissiponense, que veremos, uma a uma, com vagar, em agradável passeio de fim de tarde lisboeta… confortavelmente sentados, sob a protecção de El-Rei Rei D. João IV e do seu fiel servidor, D. Antão de Almada (um dos espevitados 40 rapazes fidalgos feitos genica lusa) – e… em sua casa.
Joaquim Saial


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

[0755] Crónicas do Norte Atlântico - UM MINDELO A MODERNIZAR-SE, NO INÍCIO DO SÉCULO XX



Crónica de Janeiro.2014

A I Guerra Mundial começou a 28 de Julho de 1914. Pouco antes, inaugurava-se no Mindelo o grande frigorífico conjunto das casas Lopes & C.ª e Madeira & C.ª e a Câmara Municipal pensava em substituir o antiquado sistema de iluminação Kitson pela electricidade. Pelo meio, a mesma instituição acabava de deitar abaixo um pestilento e degradado urinol, vergonha da urbe que se queria limpa e renovada. São tudo notícias da Folha de São Vicente, secção do jornal O Futuro de Cabo Verde, de 2 de Julho de 1914 (1), que mostram uma certa dinâmica de modernidade que percorria a cidade única de São Vicente, apesar das nuvens negras de morte e destruição que se avizinhavam no Mundo.


Urinol a abater…

"Pois já não era sem tempo." Assim começava a nota sobre o urinol que se encontrava à entrada da cidade (2). Com notável sentido de humor, o articulista anónimo dizia que o tempo e a Câmara Municipal haviam feito a meias o trabalho de derrube do equipamento: "Esta [a CMSV], com medo de ofender aquele, foi esperando que ele, a pouco e pouco, como bom obreiro, se encarregasse da parte que lhe competia e depois um pouco envergonhada do seu descuido chegou lá e em dois dias, com um pedreiro, foi um ar que lhe deu." Referia o jornal que se soava que o Município de São Vicente pensava em substituir o desmantelado urinol por outro "em melhores condições de construção e mais facilidade de higiene" e perguntava, terminando: "Será assim?" É quase certo que tal tenha acontecido. Pelo menos, o plurim de virdura (3) sempre teve uma casa de banho pública, à direita de quem entra pela porta da Rua de Lisboa e que curiosamente protagonizou perto dos meados dos anos 60 do passado século um episódio de milagroso aparecimento de… petróleo. Servido de água salobra por uma abertura no pavimento da rua, um dia alguém para lá atirou uma beata ou fósforo ainda aceso. Este, logo incendiou o combustível fugido por uma fissura na tubagem da bomba de gasolina existente alguns metros a seguir e que, escoando-se nas entranhas da Rua de Lisboa, penetrara no poço… Foi dia de pitrol no Mindelo e de stóra sem fim nos tempos seguintes (4). Outra instalação sanitária, no canto direito do muro do saudoso Eden Park, levou descaminho, devido às obras de construção do Hotel Porto Grande e consequente fecho da rua onde fazia esquina. E hoje, num canto da Praça Nova, temos uma, gigantesca, que dá para eventual alojamento de várias famílias e todo o seu mobiliário, em caso de catástrofe…


O frigorífico da marginal

A 13 de Junho, pelas 17 horas, na marginal do Mindelo, em frente da Casa Madeira e C.ª,  inaugurava-se o novo frigorífico que esta casa comercial e a sua sócia Lopes e C.ª haviam mandado erigir. Junto ao mar, o complexo tinha casa de máquinas e congelação e seis câmaras refrigerantes para peixe, carne e hortaliças. 
À cerimónia acorreram membros do corpo consular, funcionários públicos representados pelos chefes das repartições, o comércio e as casas estrangeiras. Os convidados foram brindados com champagne frapée e bolos e o redactor da Folha agradeceu em nome do gerente da firma Lopes e C.ª, Roberto Duarte Silva (5) (que se encontrava impossibilitado por um incómodo de garganta) a todas as autoridades que haviam concorrido para que a obra tivesse sido concretizada, incluindo o Governador da Província, Joaquim Pedro Viera Júdice Bicker (6). A festa encerrou com hurras!, à inglesa.

O frigorífico abria diariamente às 8 horas da manhã, para a venda de gelo e para serem retirados os volumes depositados para resfriar, em troca de senhas que eram entregues no acto do depósito. O gelo que ali se podia adquirir, em blocos ou peças mais pequenas, custava oito centavos por quilograma.

Outra fábrica de gelo seria mais tarde implantada na Lajinha, propriedade do empresário de origem italiana Pietro/Pedro Bonucci (7). A actividade frigorífica em São Vicente teve ainda maior desenvolvimento a partir dos anos 50 do século XX, com a criação de duas grandes empresas: a Sociedade Frigorífica Exportadora e a Congel – Companhia de Pesca e Congelação de Cabo Verde. Ambas tiveram boas áreas de frio e razoáveis frotas de pesca. À data da independência de Cabo Verde ainda existiam, embora em condições económicas e financeiras difíceis. Da Frigorífica, nada sabemos; quanto à Congel, foi dissolvida pelo decreto 524-A/76 de 5 de Julho (Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal). O texto do acordo de extinção seria assinado por Vítor Crespo, pela parte portuguesa e por Osvaldo Lopes da Silva, do lado cabo-verdiano.


A ideia da luz eléctrica no Mindelo

Foi numa sessão da Câmara Municipal realizada algures na primeira metade de 1914 que surgiu a ideia de se substituir a iluminação pública vigente, do sistema Kitson, por uma rede eléctrica. A proposta, assinada por Júlio Veiga, presidente da edilidade são-vicentina, e pelo vereador César Serradas, tinha apenas a finalidade de fazer com que se estudassem os meios de se tornar viável o projecto. Mas, previdentes, apelavam ao senador Vera-Cruz para que este com o seu "zelo pelo desenvolvimento e progresso [da] província e, em especial [da] ilha [de São Vicente, procurasse] obter propostas em condições as mais vantajosas para o fim que se [tinha] em vista." Pretendia a Câmara pedir um empréstimo para prover as carências de tarefa de tamanha envergadura, para a qual não possuía os meios necessários, devido à escassez do seu orçamento. A Folha de S. Vicente lamentava o facto de se ter gasto muito dinheiro com o sistema de iluminação a acetileno e depois com os candeeiros Kitson (8), alegando que esse montante poderia ter sido aplicado à partida no moderno sistema eléctrico de iluminação.

Imagem de início de século da Rua de São João, vendo-se candeeiro

Contudo, só no dia 6 de Agosto de 1925, 11 anos depois, a electricidade deu verdadeiramente o primeiro passo no Mindelo, através da assinatura do contrato para fornecimento da nova energia entre a Câmara Municipal de São Vicente e os industriais Pietro Bonucci e João Rocheteau Lessa. À frente do Município de então estava Francisco Augusto Regala, o médico militar para sempre amado pelos mindelenses que assim punha em prática deliberação tomada pela Assembleia Municipal no ano anterior (9). Há quase 90 anos, portanto…

Notas:

1. P. 3.
2. Não conseguimos saber em que exacto sítio.
3. Mercado municipal ou mercado de verduras.
4. Stóra semelhante se encontra em Ilhéu de Contenda, de Teixeira de Sousa, desta feita situada na Praia de Nossa Senhora, na ilha do Fogo. Ali, o petróleo viera de um bidão furado armazenado na Alfândega próxima da dita praia. No mesmo livro, Teixeira de Sousa conta terceiro caso, de um são-vicentino que vendera gasóleo proveniente do seu poço de quintal, neste caso "fugido" de depósitos da Miller's & Cory's.
5. Não confundir com o famoso químico santantonense do mesmo nome, falecido em Paris em 1889.
6. (1867-1926). Distinto oficial da Armada portuguesa, atingiu o posto de capitão-de-mar-e-guerra. Foi Governador de Cabo Verde, no período de 1911-1915.
7. Ver recente estudo de Lucy Bonucci in http://brito-semedo.blogs.sapo.cv/437264.html
8. Numa das quatro sessões camarárias de Maio e Junho desse ano foi autorizado o pagamento de materiais Kitson, na importância de 79$32. Tal como se afirma no texto do jornal, os candeeiros Kitson, que forneciam iluminação satisfatória, eram contudo pouco práticos pelos cuidados que requeriam. O sistema foi inventado por Arthur Kitson (daí o nome) nos Estados Unidos da América, em 1885. No essencial, tratava-se de fazer arder querosene ou nafta numa camisa incandescente.
9. Ver nota 5.

[0754] São Vicente quer reconquistar Campeonato de Futebol de Cabo Verde - VER POST 753 COM CARNAVAL NA MINDEL

A ilha de Porto Grande vai estar representado pelo Mindelense no Grupo B, enquanto detentor do título, e um segundo representante na poule A. São Vicente quer reconquistar Campeonato de Futebol de Cabo Verde
Desporto Sapo

Mindelense - Equipa de 2013
O presidente da Associação Regional de Futebol de São Vicente disse este fim-de-semana que São Vicente “vai entrar para reconquistar o Nacional 2013/14”, aproveitando o facto de disputar a prova com dois representantes, e admite que a ilha do Porto Grande terá responsabilidades acrescidas.

Benvindo Leston fez estas considerações para reagir ao sorteio do Campeonato de Cabo Verde, realizado na sede federação de futebol na Cidade da Praia, tendo ressalvado que "qualquer grupo é indiferente", tanto mais que a ilha de Porto Grande vai estar representado pelo Mindelense no Grupo B, enquanto detentor do título, e um segundo representante na poule A.

Leston acredita que tanto o Mindelense como o segundo representante da ilha poderão afigurar-se como "um forte candidato a ganhar o campeonato nacional", pelo que antevê responsabilidades acrescidas para o futebol da ilha de São Vicente.

"Temos de fazer de tudo para reconquistar o título nacional", disse Benvindo Leston recusando-se no entanto de avançar pormenores acerca da eliminação da selecção de Cabo Verde do Mundial Brasil'2014 pela FIFA "por erros de secretaria", limitando-se a sublinhar que "pessoalmente" tem a sua forma de "defender as coisas".

Disse entretanto, que as 11 associações presentes na assembleia-geral (Santo Antão Sul foi a única ausente), já manifestaram a sua solidariedade ao presidente da direção Mário Semedo para o cumprimento do mandato, até 2015.

Não obstante, asseverou que "isto não quererá dizer que São Vicente não vá manifestar a sua solidariedade ou não", alegando que não teve tempo de auscultar a posição da associação.

"Não sei se é a posição dos associados. Estou a falar aqui como presidente da Associação Regional de Futebol de São Vicente. É minha opinião pessoal", precisou.

De acordo com o sorteio realizado sábado, na Cidade da Praia, Mindelense (detentor do título) e os campeões regionais do Fogo, Sal, São Nicolau, Boa Vista e Maio estão colocados no Grupo B, ao passo que os campeões regionais de Santo Antão Norte, Santo Antão Sul, Santiago Norte, Santiago Sul, Brava e o segundo representante de São Vicente estão inseridos no Grupo A.

Conteúdo publicado por SportInforma c/ Inforpress

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

[0753] Aí está o Carnaval do Mindelo!!!

Muzquinha d'Grupo Samba Tropical (pa Carnaval d'2014), enviód por nôs agente infiltród na Mindel, Zeca Soares. Fala-se sobre a Revolução Industrial, com british pelo meio. Para os nossos visitantes saltarem um bocado nas cadeiras dos seus escritórios.
Clique AQUI

Foto Djibla, Carnaval 2010

[0752] Crónicas do Norte Atlântico - O PADRE CLÁUDIO SIMÕES, UM MISSIONÁRIO ALENTEJANO ENTRE OS CABO-VERDIANOS DA AMÉRICA



Crónica de Dezembro.2013
  
O PADRE CLÁUDIO SIMÕES, UM MISSIONÁRIO ALENTEJANO ENTRE OS CABO-VERDIANOS DA AMÉRICA


O Padre Cláudio Simões
Demos com o padre alentejano (1) Cláudio Simões pela primeira vez em Agosto de 1953 (2), em Waterbury, Connecticut, quando a convite de antigos paroquianos seus da freguesia de N.ª Sr.ª da Conceição, ilha do Fogo, e enviado pelo bispo de Cabo Verde visitava a colónia cabo-verdiana dos Estados Unidos da América. Estava então alojado em casa de um Augusto Rogério, em Seymour, no mesmo estado, e encontrava-se investido de todas as ordens pelo bispo de Hartford.

No dia 5 mês seguinte, era o celebrante de uma missa na igreja de St. Francis, em Naugatuck, com desejada prática em português. Nada no entanto parecia ligar o evento a Cabo Verde, pois tratava-se de celebrar a festa de São Paio (da Torreira, Murtosa, Portugal) no Clube União Portuguesa daquela localidade americana (3). Mas dias depois, sabia-se através da imprensa de língua portuguesa que o padre, para além de mostrar no dito clube um filme sobre o encerramento do Ano Santo em Fátima, projectou outro sobre as últimas erupções do vulcão do Fogo (4).

A 10 de Outubro, por intermédio do Diário de Notícias de New Bedford, o sacerdote apelava à comparência da população de Waterbury e arredores na missa que iria oficiar a 19, pelas 15 horas, na Community House situada no 34 da Hopkins St. (5). Ali realizaria uma palestra e exibiria os mesmos filmes que mostrara em Naugatuck, perante uma audiência de 150 pessoas e o mayor da cidade, Ray Snyder (6).

Demorando-se nos Estados Unidos da América, em princípios de Dezembro o padre Simões era referenciado entre a comunidade cabo-verdiana de Newport, R.I. No Clube Social Cabo-Verdiano, situado na West Broadway, mais uma vez falou de religião e mostrou os filmes que tinha trazido consigo, desta feita também de danças populares cabo-verdianas e de fados de Portugal, para além dos habituais dedicados a N.ª Sr.ª de Fátima (7). Enquanto isso, realizava outras actividades de âmbito social, como a que teve lugar na Associação de Veteranos de Guerras Estrangeiras na Purchase St., 561, New Bedford, a favor do fundo da Bolsa Escolar em Memória dos Homens do Mar (8).

No Janeiro seguinte, o sacerdote continua a sua tarefa de mostrar entre os cabo-verdianos da América os filmes de que temos vindo a falar. Por notícia do dia 8 (9), ficamos a saber que "entre as danças regionais portuguesas, incluindo as cabo-verdianas" havia "típicas mornas". Desta feita, o local escolhido para a apresentação era o Verdean Hall  (10) de New Bedford e a ela podiam assistir todos os portugueses "sem distinção de naturalidade"…

Entretanto, o missionário ia sendo convidado para outras actividades de cariz religioso e social, como a da tomada de posse da nova direcção do clube da igreja de N.ª Sr.ª da Assunção de New Bedford presidida pelo pároco residente Edmond Francis mas à qual Cláudio Simões deu o brilhantismo da sua reconhecida capacidade oratória (11). 

Em meados de Julho, está em Providence, R.I. (12). Aí, um grupo de senhoras do Portuguese Women's Club do International Institute, em Jackson St., entregou-lhe 40 dólares, resultantes de um sarau dançante realizado no "The Farms" de Warwick destinado a obras caritativas do arquipélago de Cabo Verde. E pouco depois encontramo-lo em Valley Falls, durante as comemorações da primeira festa do Dia do Penalvense (13), no Szpila's Grove, parque da cidade. Aí, exibe uma outra faceta que completa a de conceituado orador: canta "Coimbra", "Santa Luzia", "Avé Maria" e outras canções que deixam "toda a gente profundamente sensibilizada". E é apresentado como missionário na ilha do Fogo, Cabo Verde, com "bela voz de cantor profissional".

Em Maio de 1955 o padre Simões volta a Cabo Verde, após a longa estada por terras do Tio Sam que compreendeu diversificado programa de missionação e amparo espiritual dos cabo-verdianos (e demais compatriotas) que por lá labutavam, nomeadamente nos estados de Rhode Island, Connecticut, New Jersey e Massachusetts. Assim,  no dia 1, pelas 5 horas da tarde, teve início uma festa de despedida no St. Rose's Hall  (14) de Boston. Na notícia que dela dava aviso desvendava-se um pouco do que haviam sido os interesses mais profundos daqueles tempos americanos para o sacerdote. É que ali tinha fundado a Liga de N.ª Sr.ª do Socorro, expressamente destinada a ajudar os mais necessitados de Cabo Verde. No programa da festa, para além de constarem uma sessão solene em que falariam várias pessoas amigas do homenageado, haveria exibição de filmes das ilhas de Cabo Verde e de Portugal (decerto os mesmos vistos antes), música e diversões e a indicação de uma colecta que reverteria para as obras de caridade de Cláudio Simões. Todas as associações de caritativas que haviam trabalhado com ele foram convidadas a enviar os seus representantes e conhecidas figuras locais constituíram a comissão que levou a efeito a homenagem: os advogados Roy F. Teixeira e António J. Cardoso e os senhores José S. Pina, António Aleixo e Teófilo L. Nunes. Uma despedida em grande, para o homem que dedicara quase dois anos à missionação entre as gentes de Cabo Verde na América.

Durante o mês de Maio de 1955, o Presidente da República Craveiro Lopes visitou Cabo Verde, sendo que a 24 esteve no Fogo. Antecipando esse facto, filhos da ilha do residentes nos estados de Nova Iorque, Rhode Island e Massachusetts, congregados no Portuguese-American Social Center de Boston, enviaram telegraficamente e por intermédio do padre Simões uma mensagem especial referente a esta ilha para ser apresentada durante a visita do Presidente (15). Era este o teor resumido da mesma: "Em virtude e conformidade deste mandato, em nome da Assembleia saudamos o Chefe do Estado Português, Exmo. Sr. General Craveiro Lopes, Exmo. Sr. Ministro do Ultramar, Comandante Sarmento Rodrigues (16), Exmo. Sr. Governador de Cabo Verde, Dr. Abrantes Amaral (17), Exmo. Sr. Administrador da ilha do Fogo, Sr. Luís Silva Rendall e as dignas entidades locais. E ao mesmo tempo, em nome desta Assembleia, solicitamos no sentido de originar e impulsionar o fomento desta ilha, principalmente no que toca à construção de um cais acostável adequado às necessidades de transportes modernos ou a excavação de um canal no sítio de Boqueirão, que melhor ainda serviria o povo." Prosseguia a comissão com a referência à fidelidade da ilha à mãe pátria que nem os Filipes nem Napoleão tinham conseguido dobrar e acrescentavam: "A ilha do Fogo é a terceira em área do arquipélago (18) e a segunda das mais produtoras. O seu solo é fértil, o seu clima excelente, os seus filhos são patrióticos e trabalhadores. Merece melhor tratamento!". Prosseguia a missiva com considerações semelhantes mas a exclamação anterior marcava o tom, com assinaturas de várias personalidades, entre as quais o advogado Roy Teixeira que as encabeçava e que por isso recebeu a resposta de Luís Rendall: "Suas Excelências o Presidente da República, o Ministro do Ultramar e o Governador da Província, muito apreciaram a mensagem de V. Exas., sensibilizando-os bastante a prova de patriotismo, pedindo que aceite e transmita à colónia cabo-verdiana os seus mais vivos agradecimentos, aos quais junto os meus próprios. Na sessão de boas vindas ontem realizada, Sua Ex.ª o Presidente da República teve palavras de apreço e simpatia para a mesma colónia." Em resumo, tratava-se de uma resposta diplomática e cheia… de nada. 

Entretanto, o padre Simões desaparece dos registos que temos vindo a consultar, não tendo voltado à América, segundo supomos. Acaba por se mudar para o Mindelo onde vive alguns anos e, ao que parece, foi professor na Escola Técnica. Terá ficado na memória de cabo-verdianos da América e das ilhas pelo bem que fez e sobretudo na ilha do vulcão, ali também pela autoria do chamado "Hino do Fogo" ("Ilha do Fogo, terra ditosa, / recordo agora o teu passado; / ao som da morna quero cantar / tua beleza ao sol doirado"…) – que ainda hoje os naturais cantam. 

Notas:

01. Desconhecemos a sua terra de origem, mas há referência à região de Portugal de onde era oriundo em Diário de Notícias de New Bedford, 29.07.1954, p. 3.
02. DN, 20.08.1953, p. 3. Exercia o seu ministério em Cabo Verde havia sete anos.
03. DN, 27.08.1953, p. 4.
04. DN, 03.09.1953, p. 4. As erupções tinham tido lugar em 1951.
05. DN, 10.09.1953, p. 5.
06. DN, 24.09.1953, p. 5.
07. DN, 03.12.1953, p. 3.
08. DN, 11.12.1953, p. 2. A associação ainda existe, no mesmo endereço.
09. DN, 08.01.1954, p. 6.
10. Pensamos que se tratava do ainda existente Verdean Vets Hall de que se falou atrás.
11. DN, 12.01.1954, p. 2.
12. DN, 15.07.1954, p. 3.
13. De Penalva do Castelo, distrito de Viseu, Portugal.
14. DN, 28.04.1955, p. 1. O St. Rose's Hall situava-se no 17 de Worcester St.
15. DN, 09.06.1955, p. 1.
16. Manuel Maria Sarmento Rodrigues (1899-1979), prestigiado oficial da Armada, foi ministro das Colónias em 1950 e a partir de 1951 do Ultramar, nome então adoptado para a mesma função.
17. Manuel Marques de Abrantes Amaral (Governador de Cabo Verde de 1953 a 1957).
18. O Fogo é de facto a quarta ilha em área (476 km2), depois de Santiago (991), Santo Antão (779) e Boavista (620).

domingo, 16 de fevereiro de 2014

[0751] Crónicas do Norte Atlântico - CURIOSOS ASPECTOS DA AVENTUROSA VIDA DO CAPITÃO DE VELEIROS "JOHN" DE SOUSA

Praia de Bote inicia hoje uma peregrinação de três dias por idêntico número de "Crónicas do Norte Atlântico" que tinham publicação atrasada neste blogue, embora já todas vistas no blogue irmão "Esquina do Tempo". Uma nova, que seguiu ontem para o jornal, sairá em altura oportuna primeiro do "Esquina" e depois aqui, como é costume.



Crónica de Novembro.2013
  
CURIOSOS ASPECTOS DA VIDA AVENTUROSA DO CAPITÃO DE VELEIROS "JOHN" DE SOUSA

Em notícia bombástica de primeira página, o Diário de Notícias de New Bedford de 18 de Janeiro de 1929 referia que fora apreendida na Geórgia a escuna Fannie Belle Atwood e que o seu capitão, João L. Sousa (1) fora preso, "acusado de passar ilegalmente para os Estados Unidos centenares de estrangeiros". Denominado como "chefe de uma das maiores companhias de contrabandistas estrangeiros no Sul" e procurado desde 1925, o capitão John (como também era conhecido) fora capturado na cidade costeira de Brunswick por um esquadrão de marshalls. Imediatamente conduzido a Boston, ali iria responder a um processo que lhe fora posto dois anos antes. Portugueses (decerto na maioria cabo-verdianos) mas também espanhóis, pagando entre 400 e 1000 dólares cada um, eram os passageiros que durante anos introduzira clandestinamente nos States. O capitão, que transferira a sua actividade de New Bedford para a zona costeira da Georgia cerca de 1925, era naturalizado americano desde Junho de 1926. Fora detentor da escuna William A. Graber que vendeu para depois adquirir a Fannie Belle Atwood (2) com a qual fez várias viagens entre Cabo Verde e a Flórida. João de Sousa comandara também a Georgette que naufragou algures na América do Sul, em desastre no qual se salvaram todos os tripulantes mas foram perdidos os bens que o barco transportava.

O capitão "Jonh" de Sousa
No dia seguinte, o mesmo jornal titulava o desenvolvimento da notícia com um enigmático texto: "O capitão Sousa está secretamente acusado em Boston – Vem da Georgia, onde foi preso, para aquela cidade, onde responderá, crê-se que por passar passageiros ilegalmente neste porto". O esquema encontrado para o negócio, segundo as autoridades de imigração de Jacksonville, era o seguinte: o capitão tinha duas tripulações, uma composta de verdadeiros marinheiros e outra de patrícios portadores de documentos de navegação falsos que chegavam escondidos em carregamentos de sal (3). Quando a escuna entrava no porto, estes passavam por marinheiros e indo para terra nunca mais regressavam. Na altura em que o navio se preparava para zarpar, as autoridades de imigração encontravam intacta a tripulação (4).

Na manhã de 28 de Janeiro, João de Sousa está no Tribunal Federal, perante o juiz James A. Lowell (5). Mas alega inocência e sai sob fiança de 2500 dólares. Curiosa e estranhamente, a acusação referia-se apenas a um clandestino, Manuel Mendes, havia 18 meses residente em Hartford, Conn., também ele sujeito a fiança do mesmo montante e que se esperava viesse a depor como testemunha principal no dia do julgamento. O capitão John acaba por se dar por culpado da entrada ilegal do Mendes nos EUA e é sentenciado ao pagamento de uma multa de 1000 dólares e a prisão durante quatro meses em New Bedford (6).

Em finais de Outubro de 1933, a escuna Corona estava amarrada ao cais do Gás, em New Bedford, a receber carga com destino a Cabo Verde (7). Chegaria a São Vicente a 17 de Dezembro, após 28 dias de viagem, mais oito que o previsto, devido ao tempo desfavorável (8). Inclusive, três tanques de água assentes no convés, destinados ao consumo da tripulação e passageiros haviam sido levados pelas ondas. A Corona, que fora construída em Bristol, R.I. (9), como "navio de corridas", estava agora na carreira de Cabo Verde sob comando do nosso capitão, seu proprietário – o qual esperava voltar aos Estado Unidos da América na Primavera seguinte, com passageiros e carga. Assim aconteceu, de facto. Desta feita, porém, a viagem foi mais longa e durou 32 dias, desde a Brava. Trazia 25 passageiros e carga diversa. Chegado a New Bedford a 2 de Junho de 1934 (10), esperava fundeado a 5 a visita das autoridades de saúde e da alfândega, antes de atracar ao cais.

O Corona
Em 1935, o navio era dirigido pelo capitão Rui B. Carvalho (11). Chegou de novo a New Bedford, a 15 de Junho, numa das suas mais demoradas viagens, após 54 dias de bom tempo e muita calmaria. Trazia carga diversa e oito passageiros, para além de 21 tripulantes. Dias depois de largar de Cabo Verde, o capitão Carvalho adoeceu gravemente e logo que chegado deu entrada no St. Luke’s Hospital, em perigo de vida. Ali faleceria a 27 de Junho, aos 44 anos (12). A bordo vinha um passageiro distinto, o professor primário, poeta, jornalista e activista da africanidade Pedro Cardoso, mais conhecido por "Afro" (13). Cardoso ia aos Estados Unidos com o objectivo de recolher entre os seus patrícios das colónias cabo-verdianas da América dinheiro para ajudar a população das ilhas, mais uma vez a passar fome (14). A triste sina de sempre…

Em Setembro, a Corona, então atracada no cais Merrils, preparava nova partida para Cabo Verde, com carga e 25 passageiros (15). Era agora comandada pelo capitão João Silva e levava como imediato o seu proprietário, João de Sousa (16). Mas em Outubro de 1938, este era de novo o comandante. Na altura amarrada ao cais Philadelphia & Reading, a Corona estava a carregar para partir antes do fim do mês, para a Brava. Levaria oito passageiros (17). Contudo, parece que para além de 15 tripulantes transportava apenas dois passageiros, Ana Gomes, de 70 anos, e Teófilo da Silva Neves, de idêntica idade, que queriam acabar os seus dias na terra onde tinham nascido… (18) O barco chegou a São Vicente, a 14 de Dezembro, sem incidentes, após 37 dias de viagem (19).

Segundo o DN, em 1939, a Corona era à época o único navio da carreira de Cabo Verde (20). Previa-se que chegasse, vinda da Brava a 20 de Julho, 35 dias depois, número aproximado que em geral levava no trajecto (21). Afinal, dessa vez foram 45 os gastos. A notícia do DN é um pouco mais desenvolvida que habitualmente e mostra algumas facetas das chegadas de navios a New Bedford (22). Assim que a escuna carregada com feijão e tabaco ancorou no porto, dirigiram-se para bordo o funcionário da Alfândega Dave J. Allen, o Dr. Edmond F. Cody, dos Serviços de Saúde Pública, o inspector dos Serviços de Imigração Charles F. Quinlan e uma tradutora, aparentemente de origem lusitana, Lucy Dias. Quanto aos 15 tripulantes, dizia-se que nove eram portugueses e os restantes naturalizados cidadãos americanos eventualmente de origem portuguesa. Comandada ainda pelo capitão-proprietário João Sousa, largaria no Outono seguinte com passageiros que iriam passar o Inverno a Cabo Verde, ficando durante essa estação a fazer cabotagem entre Cabo Verde e a costa de África. A 18 de Setembro de 1940, em plena II Guerra Mundial, a Corona chegou de Cabo Verde após longa viagem de 47 dias, com 15 tripulantes e outros tantos passageiros (23), sem avistar submarinos ou demais vasos militares alemães. Trazia também arroz, milho picado, feijão, tabaco e algumas latas de xarope de cana-de-açúcar. O capitão Sousa, questionado pela imprensa sobre a situação económica em Cabo Verde referia que os preços dos artigos estavam altos devido às contingências provocadas pelos efeitos da guerra. O barco entrou na doca seca para ser limpo e reparado, tendo em vista a sua partida em Outubro ou Novembro. Com efeito, em meados de Novembro estava pronta para voltar às ilhas (24).

Mais não sabemos da Corona. Relativamente ao capitão, ao invés de o considerarmos mero "contrabandista de estrangeiros" (como o classificava o DN de 18 de Janeiro de 1929), podemos sem grandes pruridos inclui-lo no vasto grupo de comandantes e donos de navios da carreira de Cabo Verde que, embora ganhando com o negócio mas arrostando contra inúmeros perigos no mar e em terra, possibilitaram a saída e salvação de muita gente de um malfadado arquipélago onde neste tempo a fome, a miséria e a morte faziam teimosa parte do quotidiano (25). De qualquer modo, se infracções praticou às rigorosas leis da imigração americana, não foram elas significativas a ponto de o impedirem de continuar nos Estados Unidos (e no Atlântico) a profissão que lhe granjeou a aura de um dos de maior sucesso na sua actividade. Para além disso, abstraindo o amor filial do escritor Teixeira de Sousa, há que fazer fé na dedicatória que este apôs ao seu livro de contos "Contra Mar e Vento": "À memória do capitão John, meu Pai – capitão que foi de veleiro e sabia protestar contra mar e vento e contra quem de direito for e pertencer possa"…

Notas:

01. Tratava-se do capitão João Lúcio de Sousa (1892-1958), pai do notável e malogrado médico e escritor cabo-verdiano Henrique Teixeira de Sousa (1919-2006), longo colaborador deste jornal. Descendente de pescadores baleeiros madeirenses, era natural da ilha Brava. Casou em 1918 com a foguense Laura Martins Teixeira e fixou-se em São Filipe, ilha do Fogo, onde ainda existe o sobrado por ele mandado fazer. Teve outro filho, Orlando (1921 - …), ainda vivo em 2013 e a residir no Bombarral, Portugal. O capitão John faleceu respeitado, em São Vicente. Estas valiosas informações foram-nos prestadas pelo neto, o médico nosso amigo e colega de Liceu Gil Eanes Aníbal Orlando "Landim" Teixeira de Sousa.
02. Que pertencera a Ernest A. Montrond, de New Bedford e fora barco de pesca em Gloucester, Mass.
03. Há conhecimento da importação de sal de Cabo Verde para os Estados Unidos da América, para aplicar nas ruas e sobretudo nos carris dos eléctricos, em altura de nevões.
04. DN, 19.01.1929, p. 1.
05. DN, 29.01.1929, p. 2. É dado como morador no 79 de Grinnell St., New Bedford.
06. DN, 28.02.1929, p. 1.
07. DN, 31.10.1933, p. 2.
08. DN, 23.01.1934, p. 2.
09. DN, 18.08.1938, p. 7.
10. DN, 05.06.1934, p. 5.
11. DN, 16.07.1935, p. 2.
12. DN, 27.09.1935, p. 8.
13. Pedro Monteiro Cardoso (Fogo, 1890 – Praia, 1942).
14. Uma das acções resultantes desta visita de Pedro Monteiro Cardoso foi a soirée dançante que se realizou a 14 de Setembro na Aliança Liberal Portuguesa, na Delano St., 4, onde ele descreveu os horrores da fome que estava a lavrar no arquipélago (ver DN, 13.09.1935, p. 2).
15. DN. 19.09.1935, p. 2.
16. DN, 15.10.1935, p. 2.
17. DN, 27.10.1938, p. 8.
18. DN, 09.11.1939, p. 2.
19. DN, 15.12.1938, p. 3.
20. DN, 05.07.1939, p. 2.
21. DN, 01.08.1939, p. 2.
22. DN, 19.09.1939, p. 2.
23. DN, 20.09.1940, p. 2.
24. DN, 16.11.1940, p. 2.
25. DN, 25.09.1926, p. 1. Joaquim Duarte, comandante da Lina ou Elizeu Neves, também capitão da Fannie Belle Atwood, entre muitos outros. Estes, por motivos semelhantes aos do capitão John, foram sentenciados cada um a um ano de cadeia e ao pagamento de 1000 dólares.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

[0750] Ainda as comemorações do 4.º aniversário do "Esquina do Tempo" - VER POST ANTERIOR

Esgotado o grog, foi necessário ir abrir um puntchim. A festa continua em grande. É que chegado o Pd'B aos 750 posts, é necessária mais alguma energia, a caminho dos 1000.


[0749] Dia de festa no "Praia de Bote", pelo 4.º aniversário do blogue irmão "Esquina do Tempo"

No 4.º aniversário do "Esquina do Tempo" (ver AQUI), o Praia de Bote fecha-se em casa com um barrilim de grog de Santantom e convida os amigos para uma prova.

Viva o "Esquina", viva o "Praia de Bote" e viva esse grog sabim, sabim na munde.

NOTA; às 17h00, barrilim já só tem dôs ded d'grog dent. Bocês bem rapidim ta bibê es rest.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

[0748] Duas maravilhosas pérolas históricas: uma do Mindelo, outra do Sal

Na ementa de hoje, duas verdadeiras pérolas ontem descobertas, uma do Mindelo, comercial, e outra salense, militar e futebolística. De nenhuma delas vamos dizer mais nada, pois há entre os comentadores do Praia de Bote (insistimos que os que só aqui vêm ta spiá nem sabem o que perdem) gente com licenciaturas em ambos os assuntos que lhes permitem falar deles com douta sapiência. Portanto, os eleitos que gastem a sua verve... Bocês bsiá e bocês falá!... Quanto ao Morro Curral da foto do Sal, veja-se AQUI





quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

[0747] Pré-publicação de parte da "Crónica do Norte Atlântico" de Fevereiro (excepto notas e ainda sem revisão de texto) - DOIS GRANDES PETISCOS VISUAIS (E HISTÓRICOS) NO PRÓXIMO POST








CONTRIBUTOS PARA O ESTUDO DAS RELAÇÕES CULTURAIS ENTRE CABO VERDE E O BRASIL 

Pode ler-se no carioca Jornal do Brasil de 18 de Janeiro de 1933 um texto de crítica literária demonstrativo do interesse que as coisas cabo-verdianas já despertavam na altura entre a intelectualidade daquele país latino-americano de expressão portuguesa – no caso, associado ao poeta das ilhas, José Lopes da Silva. Daí, a nossa crónica desta feita descer do Atlântico Norte ao Sul, em águas de igual gosto lusófono, sentido por irmãos brasileiros, cabo-verdianos e portugueses. 

José Lopes da Silva
O aludido texto, publicado pelas oficinas gráficas do Jornal do Brasil nesse mesmo ano, reproduzia o discurso de José Lopes da Silva na Câmara Municipal de São Vicente, escrito por ocasião da passagem pela ilha, a 24 de Maio do ano anterior, do cabo-verdiano Martinho Nobre de Melo, então embaixador de Portugal no Brasil, que se dirigia ao Rio. Dizia o articulista que se tratava de notável peça de oratória que convinha "ser conhecida de todos e principalmente dos que [sabiam] aquilatar da vernaculidade da língua portuguesa, tal [era] a expressão do tribuno erudito que se [revelava] nesse trabalho, um atleta da linguagem castiça, dos grande lances oratórios e do pensamento fecundo." Prosseguia o texto: "O discurso, que ocupa as cerca de 20 páginas páginas do folheto recebido é uma saudação ungida de afecto do venerando professor ao Dr. Martinho Nobre de Melo, seu discípulo na adolescência, aferindo as qualidades de carácter e talento do homenageado em todos os postos da sua vida pública, como as dos mais eminentes patrícios." Mais curiosa, pela inclusão de pedido local, era a referência à esposa do embaixador. Afirmando que pelo nome (Alexandra) ela era "defensora do homem", invocava o orador o seu auxílio em favor da mocidade escolar cabo-verdiana. Terminava o discurso com cumprimentos ao também ali presente antigo senador Augusto Vera-Cruz, então cônsul do Brasil em Cabo Verde. A representação do Brasil no arquipélago iria ser detida pouco depois, como veremos, pelo próprio poeta José Lopes da Silva, por morte do senador Vera-Cruz a 5 de Dezembro desse ano de 1933.

A 3 de Novembro, Lopes da Silva surge-nos em A Noite, outro jornal do Rio, a propósito de "Hesperitanas", saído em Lisboa em edição da Livraria J. Rodrigues. (...)

[0746] Inteligência, sabedoria e nacionalismo são

Cabo Verde passa a ser definitivamente... Cabo Verde

A grafia de Cabo Verde nas instituições internacionais já está definida com a denominação portuguesa, pondo-se termo às utilizadas em francês, Cap Vert, inglês, Cape Verde, ou italiano, Capo Verde, noticia hoje a imprensa cabo-verdiana.

Segundo a edição "online" do jornal A Semana, a Organização das Nações Unidas (ONU), a pedido das autoridades cabo-verdianas, aprovou a grafia definitiva em 2013, acabando com as traduções para as dezenas de línguas nas suas diferentes instituições.

Um exemplo das dificuldades que existiam, quer para Cabo Verde quer para os remetentes/destinatários, segundo o jornal cabo-verdiano, que cita uma reportagem do diário norte-americano Boston Globe, publicada na segunda-feira, dá conta dos casos de um simples telegrama diplomático ou da elaboração de um guia turístico.

Hoje, a nova grafia é utilizada em todas as línguas oficiais das Nações Unidas, aceitando-se, porém, as versões Republic of Cabo Verde, em inglês, ou République du Cabo Verde, em francês.

Nos Estados Unidos, segundo o jornal norte-americano, a base de dados do Governo e os sites governamentais, caso, por exemplo da agência de informações CIA, já adotaram a grafia Cabo Verde.

«Há um sabor e poder especial em dizer: é isto que somos. Deixamos de ser rotulados como isso ou aquilo», declarou o ministro da Cultura cabo-verdiano, Mário Lúcio Sousa, ao Boston Globe, citado pelo A Semana.

Para o jornal norte-americano, o nome de um país traduz a sua cultura, identidade e história. «É uma marca que influencia tudo, desde o desenvolvimento económico, às oportunidades de investimento internacionais e o turismo. Cabo Verde está no mapa. Está estampado nas capas de revistas comerciais», lê-se na reportagem do Boston Globe.

«Quando alguém diz "Estados Unidos", as pessoas pensam logo numa potência económica, num país de invenção ou de sonhos. Quando se diz "Cabo Verde", as pessoas pensam em sol, praia, pessoas agradáveis, sorrisos, pessoas que trabalham», declarou Mário Lúcio ao jornal norte-americano.

Lusa

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

[0745] Um urinol arrepiante, frigoríficos novinhos em folha e "quase" electricidade, tudo no Mindelo e na "Esquina do Tempo"

Ver AQUI

[0744] Notícias de São Nicolau - Uma iniciativa meritória que honra a cultura de Cabo Verde - VEJA OS QUATRO RECENTES POSTS ANTERIORES

Proteger o património cultural de um país é isto também!



Dois poemas de Pedro Corsino de Azevedo (1905-1942)

TERRA-LONGE

Aqui, perdido, distante
das realidades que apenas sonhei,
cansado pela febre do mais-além,
suponho
minha mãe a embalar-me,
eu, pequenino, zangado pelo sono que não vinha.

"Ai, não montes tal cavalinho,
tal cavalinho vai terra-longe,
terra-longe tem gente-gentio,
gente-gentio come gente."

A doce toada
meu sono caia de manso
da boca de minha mãe:

"Cala, cala, meu menino,
terra-longe tem gente-gentio
gente-gentio corne gente."

E envelheceu lá dentro
Não posso conceber
O que vêem as meninas
Dos meus olhos
Depois que sou livre.

Abrolhos são flores,
Amores, vida.
0 que é a magia da sombra!...

Agora já posso gritar:
Livre! Livre!

Tapei o poço da morte, a cantar.


CONQUISTA

Trás!...
Explodiu a Verdade,

Agora sou capaz
De tudo
Indiferente e quedo e mudo
Deixarei escangalhar o brinquedo
Que temi na Infância,
Rasgou-se o céu em mil fatias lindas,

Ricos
Fanicos
Que recolhi na mão.

Desilusão!
Cristal, cristal, cristal!

E eu a namorar o mal...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

[0743] Djosa de "Maderal", uli um figura mindelense... real

Praia de Bote acabara de prometer no post anterior um retiro de alguns dias, que de facto vai cumprir, e eis que logo a seguir surgiu na sua caixa de correio este excelente brinde que aqui vos deixamos, com o maior agrado, saído da pena do nosso amigo e colaborador Adriano Miranda Lima. Leiam portanto os dois posts (742 e 743), ambos do maior interesse para quem gosta das ilhas verdianas e das suas gentes.

DJOSA DE “MADERAL”

Adriano Miranda Lima
Quando, há poucos dias, interviemos para comentar o post 733 (decifração de 3 enigmas), a figura fictícia do “Djosa de nha Bia” entrou em cena e convenhamos que nos divertiu. Essa figura nasceu no blogue ARROZCATUM por uma iniciativa brincalhona, muito a seu jeito, do Djack, a propósito de um post que retratava o navio de cruzeiro Queen Victoria. Reagi logo ao mote lançado pelo Djack, e o Zito, proprietário do blogue, não quis ficar atrás e também lhe deu bem. E em boa hora assim foi, dado que nos divertimos à brava em torno das peripécias do “Djosa de nha Bia”, introduzindo-se assim uma novidade na rotina dos comentários, e de tal modo que estes ascenderam a uma cifra razoável. O que fizemos não foi mais do que criar uma figura humana típica, colhida no imaginário mindelense, que é povoado de figuras, mitos e estórias as mais mofinas, imaginosas e divertidas. Grande parte das figuras populares que pululam nas nossas lembranças foram reais e os seus protagonismos o foram também, mas entre a realidade e o mito o mindelense tem sempre a arte de acrescentar umas pitadas de invenção, como todos sabem. E dessa amálgama resulta aquilo que é conhecido como a “mufneza mindelense”, pouco compreendida pelos nossos irmãos santiaguenses, porque, como é sabido, é bem diferente o perfil psicológico dos dois povos ilhéus.

É certo que essas “invenções” num blogue que é difundido sem limites geográficos e sem fronteiras nacionais delimitadas, não serão certamente compreendidas no seu significado por quem desconhece o imaginário mindelense, pelo que pode confundir o inadvertido aparecimento de uma figura, real ou imaginária, subitamente enxertada num diálogo entre comentadores.

Ora, foi assim que introduzi naquele post 733 um diálogo entre o Djosa de nha Bia e o Djosa de Madeiral (“Maderal”). Todavia, reparei que ninguém pegou no mote para continuar a alimentar a chama da brincadeira. E creio que havia motivo para isso visto que o Djosa de “Maderal” era (ou foi) uma figura bem real, não criada no contexto do divertimento. Acabei por desconfiar que os presentes ou não conheciam o Djosa de “Maderal” ou não se recordavam dele. E essa minha suspeita acabou por confirmar-se quando, em conversa com o Valdemar, este confessou-me que nunca o conheceu ou não se recordava da pessoa. Acontece que desde pequeno passei a conhecer o Djosa de “Maderal”, que calculo seria pessoa mais velha do que eu uns 15 ou mais anos. 
                               
Djosa de "Maderal", em preparos de Carnaval - Fotos Djibla
Ora, quem era afinal o nosso homem? O Djosa era um homem muito alto, talvez de 1,90 m ou mais, mas magrinho, com uma cabeça pequenina e em desproporção com a estatura, possuidor de um rosto de feições fininhas e um olhar de pássaro, que resultava dos olhos arredondados, salientes e vivos. Era ingénuo e dotado de um feitio bonacheirão, simpático e pacífico, pactuando com todas as brincadeiras de que era alvo. Ele tinha esse nome porque trabalhava precisamente na estação de fornecimento de água do Madeiral, situada perto do antigo edifício do Tribunal. Nunca percebi se essa ocupação representava mesmo um ofício a sério ou se não passava de um expediente que alguém cuidou de arranjar para o homem se sentir socialmente integrado. Esclareço que ele não era propriamente um demente, apenas um ingénuo, mas que, tanto quanto suponho, não seria pessoa capaz de tratar de si autonomamente, em todos os aspectos. Julgo que havia uma senhora que cuidava dele, mas ignoro se existia uma efectiva ligação familiar entre ambos. O certo é que o Djosa andava sempre asseado e bem arranjado de indumentária.

Ele criava o seu próprio mundo interior e nele alinhava o seu viver diário, simplificado e à medida da sua capacidade mental. Para dar uma ideia disso, lembro-me de que, um dia, estava eu na Praça Nova, tendo na altura os meus 16 ou 17 anos, e perguntei ao Djosa de onde ele vinha, já que aparentava uma boa disposição. E ele respondeu que vinha de um restaurante onde acabara de consumir um lauto jantar de lagosta com muitas e muitas cervejas. Era assim o Djosa de “Maderal”. Mas o que era mais conhecido nele é que se considerava namorado de todas as criadinhas da cidade. E nessa qualidade se sentia obrigado a ir esperá-las todas as noites, nas imediações dos seus locais de trabalho, para as conduzir às suas casas. Mas como era o “namorado” de muitas, cumpria religiosamente esse compromisso com todas, sem excepção. E assim se pode ver o rodopio que seria o vaivém nocturno do Djosa entre a “morada” e os arrabaldes da cidade. E foi esse o motivo por que injectei no meu comentário este diálogo entre o Djosa de nha Bia e o Djosa de “Maderal”, que reproduzo:

O Djosa de nha Bia andava por aí já noitinha, viu o Djosa de “Maderal”, que ia com uma “mnininha”, e resolveu meter-se com ele:
       ̶  Djosa de “Maderal”, comprá'm um segred de concurse de Jack de Cuptania na PdB!
       ̶  Agora não porqu'm tita ba levá ês pquéna na casa. Ele cabá de saí de sê sirvice.    
       ̶  Enton quond bô voltá bô ta compra'm um?
       ̶  M'ca tem temp, porqu'm ta bá logo bscá ote pquéna que tita esperá'm na sê sirvice.
       ̶  Adé, enton tont pquéna bô tem, rapaz?
        ̶  Bô ca sabê, Djosa de nha Bia? Tud ês mnininha que ta sirvi de criada ê nhas pquéna. Tud nôte m’ta ba bscás pa levás pa casa.
        ̶   E bô ca ta fazês nada, Djosa? Ê sô levás pa casa?  ̶  E Djosa de nha Bia selou esta indagação com uma risada marota. A que o outro respondeu:
         ̶   Bô ca metê na nha vida, trivid de merda! O que bô tem ê ciúme.

Tomar, 10 de Fevereiro de 2014

[0742] Abriu a caça ao cabo-verdiano em New Bedford... em 1926

Eram gente do "Lina" (a barca que teve vários nomes - entre  os quais "Coriolanus" - bandeiras e armadores, sempre ou quase ligada a Cabo Verde). E eram fugitivos, com notícias nos jornais locais, inclusive no maior de língua portuguesa. A história do imponente veleiro já aqui a contámos, em artigo escrito para o "Terra Nova". Por isso, é só lá ir... VER ARTIGO Aqui fica o caso destes filhos das ilhas (e do capitão Joaquim Cláudio Duarte, preso também), até que tenhamos tempo para voltar, após mais uma hibernação para escrita. A verdade é que... a escrita obriga...

Diário de Notícias de New Bedford, 21.7.1926


Diário de Notícias de New Bedford, 23.7.1926



Hyannis Patriot, 2.8.1926

[0741] A Regionalização: o Adiamento de uma exigência e de uma urgência (2.º de 2 artigos - ver post anterior)

2. O Modelo de Governador Provincial ou do Municipalismo versus o Modelo de Regiões Autónomas:  A Regionalização e o fim da tutela sobre as colectividades locais eleitas

José Fortes Lopes
Apesar de o Debate sobre a Regionalização se ter imposto por si só, existe uma grande tentativa da sua banalização e do esvaziamento do seu conteúdo, desvalorizando-se o problema do Centralismo e do Regionalismo em Cabo Verde, o último muitas vezes denegrido, por associado a bairrismo ou outros ‘ismos’ (usados como arma de arremesso para abafar qualquer tentativa de debate ou de denúncia de problemas. De resto debates de ideias em Cabo Verde resumem-se a acusações). A pobreza desta argumentação está na mesma proporção da sua fraqueza.

Na realidade, o poder e os partidos têm lançado intencionalmente um caos conceitual sobre a problemática da Regionalização. O objctivo é apresentar a Regionalização como um processo puramente administrativo, despido da sua componente política, uma Regionalização organizada a partir do centro do poder, para manter a periferia sob controlo político e económico, uma Regionalização meio carne meio peixe, muito do interesse daqueles que querem manter o sistema centralista intacto e afugentar qualquer ameaça à situação de concentração dos poderes. Na realidade a Descentralização necessária do aparelho de estado tem sido intencionalmente confundida com a Desconcentração, mas são dois conceitos distintos. Enquanto que a Descentralização é uma reforma que consiste em transferir competências e recursos do Estado central às colectividades locais, correspondendo a um processo de reforço da democracia local, com os seus próprios órgãos e o seu leque de atribuições e competências, a Desconcentração consiste simplesmente em melhorar a eficácia da máquina do Estado delegando poderes a representantes do estado junto do poder local, através, por exemplo, da figura do governador ou de delegados do governo ou das estruturas governamentais, sem tocar no essencial do conceito do centralismo do poder. Com o repúdio da ideia da nomeação de um Governador dependente do governo, introduz-se o Municipalismo, ou seja, do reforço do actual sistema autárquico ou na criação de autarquias regionais. Na realidade, uma ‘reforma’ que consiste na atribuição de mais poderes (?) aos presidentes das câmaras, não corresponde à Regionalização pelo que é um abuso de linguagem. De resto, na maior parte dos países regionalizados (França, Espanha, Suíça, etc), existe Municipalismo e Regionalização, duas realidades coexistindo independentemente uma da outra. Com efeito, enquanto as Regiões são espaços territoriais e políticos contendo inclusivamente várias câmaras, as esferas de influência e de competências do Municipalismo referem-se unicamente ao estrito espaço delimitado e reduzido de uma cidade, em geral sem funções políticas específicas. Para mais, nos países regionalizados existem políticas regionais e políticas municipais bem distintas. Pergunta-se o que é que ganhará uma câmara ou uma ilha, atribuindo mais algum poder ao seu presidente de câmara? Mais especificamente é o que uma ilha como S. Vicente ganharia economicamente e socialmente com a mera atribuição de mais poderes ao actual Presidente da Câmara, numa situação de disputa e guerra permanente entre o poder municipal e central, se a Ilha continua refém das decisões do poder Central ou dos partidos e limitada politicamente e economicamente? Uma ‘reforma’ deste tipo seria pura cosmética não resultando em nenhum ganho, na medida em que os poderes de decisão permaneceriam nos centros de decisão e o centralismo não seria tocado. O reforço do Muncipalismo pode, a meu ver, ser inclusivamente muito perigoso em Cabo Verde. Se no caso de S. Vicente a sua aplicação poderia ser absurdamente pacífica, pois a autarquia por enquanto confunde-se com a Ilha, aplicada a Santo Antão, Santiago ou Fogo, ilhas constituídas por vários municípios, poderia engendrar uma miríade de poderes paralelos, de caciques locais dispersos numa mesma ilha, ou seja o caos político, ao gosto dos centralistas que tirariam dividendos das querelas intestinas e das guerras fratricidas. O reforço do Municipalismo saldar-se-ia assim no reforço das tensões políticas internas nas ilhas, no dividir para imperar e na alienação da democracia. É precisamente o oposto que se pretende com a Regionalização, propõe-se caminhar rumo a políticas de maior integração e sinergia nas ilhas e entre as diferentes autarquias, o todo integrado numa perspectiva de desenvolvimento insular ou regional. De resto sabendo que Regionalização deve ser um conceito dinâmico, o seu próprio desenvolvimento poderá tender no futuro para a criação de Macro-Regiões agrupando regiões afins tal como pode ser o caso da Região Norte de Cabo Verde. De resto existe uma corrente regionalista que defendem a tese que a verdadeira Regionalização de Cabo Verde corresponderia à criação de Macro-Regiões e não da Ilha-Região. Considero que as duas ideias não são incompatíveis e ambas têm o seu valor e mérito, ou seja é possível num médio ou longo prazo encontrar mecanismos de integração política das Regiões afins, pois como disse anteriormente, o modelo de Regionalização para Cabo Verde não pode ser um processo definitivo, formatado, dogmático mas sim algo sujeito a uma progressiva evolução e em constante avaliação crítica e aperfeiçoamento.

Assim considero que a atribuição de mais poderes aos Presidentes de Câmara no presente contexto político centralizado representará um presente envenenado às ilhas periféricas (e aos seus dirigentes) redundando num prejuízo para as suas populações, pelo que esta opção deve ser rejeitada. As futuras Regiões não podem ficar reféns do Poder Central nem dos jogos políticos internos, devem estar acima deles, para que os seus governos desempenhem as suas tarefas com total independência e responsabilidade. Para além disso, os cargos de responsabilidade regionais devem ser dignificados, não podem ser em “part-time” nem mal pagos.

Acredito na irreversibilidade de um processo de Regionalização que permita reconfigurar profundamente o país e tirar as ilhas periféricas de Cabo Verde do estado de letargia. A regionalização deve corresponder a um maior e melhor poder local e aproximar o poder das populações.

Afigura-se assim inevitável a reorganização administrativa e política do país. A criação de Regiões com autonomia Política e Administrativa terá implicações no coração do próprio sistema e do regime, que terá que ser repensado, no sentido do seu redimensionamento e reequilíbrio (talvez esteja aí a razão das resistências à Regionalização) para evitar redundâncias. A criação de parlamentos regionais e de governos regionais implicará uma redefinição, ou mesmo reforma do parlamento nacional, por um lado, e do papel dos municípios, por outro lado, exigindo forçosamente no fim uma reforma constitucional. Para que se possa criar um poder regional dotado de órgãos e parlamentos regionais com custo quase zero para o país, afigura-se necessário o emagrecimento da Assembleia Nacional e das Assembleias Municipais, com redução do número de deputados nacionais e municipais. Por outro lado, torna-se indispensável o reequilibrar a balança dos poderes no pais e entre as ilhas através da criação de um Senado ou de uma Câmara Alta, onde cada Região terá um certo número de assentos.

Resumindo a Centralização em Cabo Verde constitui uma forma de governo, uma estrutura de organização política anacrónica, paralisante, ultrapassada, que não responde mais às exigências da vida moderna e da competitividade entre as nações evoluídas pelo que deve ser abolida.  O Estado Central não pode continuar a exercer tutela sobre as colectividades eleitas. A Regionalização é pois uma exigência e uma urgência para Cabo Verde.

ANEXO: Esboço de uma proposta de Plataforma para Regionalização

11 Ideias para a Implementação da Regionalização

Medidas a Curto Prazo

1) Abertura imediata sem pré-condições do debate alargado à sociedade civil sobre Regionalização, incluindo a Reforma do Estado, a Descentralização e a Desconcentração do país;

2) Reconhecimento de que o modelo de Regionalização para Cabo Verde não pode ser um processo definitivamente formatado, dogmático, mecânico, mas sim algo sujeito a uma progressiva evolução e constante avaliação crítica, sujeito a  aperfeiçoamento ao longo do tempo;

3) Reconhecimento do direito do povo cabo-verdiano à auto-governação local com a instituição de parlamentos e de governos locais ou regionais;

4) Acordo de Fim do Centralismo e transição para a Descentralização, mercê da transferência de soberania, competências políticas, e recursos (humanos económicos e financeiros) do Estado Central para as para as comunidades regionais locais;

5) Acordo de Desconcentração para melhorar a eficácia da máquina do Estado a nível local;

6) Acordo de Descentralização com um Calendário ou Coteiro onde constam medidas concretas (quantificadas e quantificáveis) para combater o Centralismo de modo a estancar a desertificação humana das ilhas periféricas, a fuga de cérebros e ao empobrecimento das ilhas;

7) Definição do Calendário e do Roteiro para a Implementação da Regionalização;

8) Instauração no curto prazo de um Parlamento e Governo Regional Provisórios e em regime Experimental na Ilha de S. Vicente, com amplos poderes políticos e executivos até à  oficialização da Regionalização, no sentido da urgente recuperação económica e política da ilha;

Medidas a Médio Prazo

9) Reorganização Administrativa e Política do país: Reforma do Municipalismo e do funcionamento do Parlamento Nacional no sentido de uma Regionalização a custo zero;

10) Instituição do Senado ou Câmara Alta com um representante em cada Ilha para o reequilíbrio político do país;

11) Reforma Constitucional de modo a integrar perenemente plenamente as Reformas acordadas na Constituição.